Categoria: FCPorto

altO mundo do prazer tem destas coisas. Leva-nos ao topo e deixa-nos sem opções. Após o deleite máximo, só há um caminho a seguir: a estreita ladeira, acabrunhada, força-nos a desembocar na realidade. É um clássico, da vida e do futebol. A perfeição, como estado passageiro e de duração muito limitada, é sempre perseguida pelos horrores da normalidade.

 

FICHA DE JOGO E NOTAS AOS JOGADORES

Olhemos para o exemplo do F.C. Porto. Inebriou-se de felicidade há alguns dias - às custas do Sporting -, divertiu-se no cume do bem-estar, mas sabia que ia ter de descer uns metros nesta partida contra a Naval.

Só um dragão tântrico, capaz de uma inaudita prolongação do nirvana, poderia manter os ritmos e o nível de terça-feira. Só uma equipa sobre-humana, suportaria o peso da pedra filosofal durante tanto tempo. Não era isso que se pedia a Jesualdo e aos seus jogadores neste regresso ao campeonato e à vida real.

Exigia-se, sim, a confirmação dos bons sintomas, a dissipação de qualquer sinal de depressão, a eliminação total do síndroma anémico da apatia, que tantas vezes provocou mossa nos tetracampeões nacionais este ano.

 

Os «destaques» da partida

E isso foi conseguido. O Porto venceu por 3-0 e venceu bem. Sem perfeição, mas concentrado e convicto que é possível voltar a trepar ladeira acima.

 

A frase de um senhor chamado Cruyff...

Johan Cruyff dizia que o mais importante no futebol era jogar com o cérebro. O F.C. Porto fê-lo desde o primeiro instante. Foi inteligente, cauteloso e competente. Provocou as primeiras sevícias no adversário através da extrapolação do talento de Fernando Belluschi, mas sempre sem transbordar os limites da lógica.

Foi algo complacente, vá lá, quando se percebia que bastava querer para ter a Naval ajoelhada e à mercê do capricho alheio. Fez girar a bola, com qualidade, aproveitou toda a largura do campo, socorreu-se da estética e da beleza de processos.

A meio do primeiro tempo, Belluschi centrou «de letra» e Falcao finalizou com um pontapé de bicicleta. Uma tela soberba, estimulante, mas ineficaz. Os golos, o tempero de tudo isto, chegaram mais tarde.

... o futebol total de Ruben e Belluschi...

Na cobrança de um livre indirecto, Tomás Costa sossegou a ânsia do dragão. O médio argentino voltou a estar muito bem, tal como Belluschi (na primeira parte) e Ruben Micael (na segunda). Perante esta equação, não é necessário ser um matemático brilhante para perceber a dor que vai na cabeça de Jesualdo.

Fernando e Raul Meireles estão à porta da recuperação, mas a fase inspirada destes três tranca-lhes a entrada na equipa inicial. O Porto reagiu muito bem à junção de Ruben e Belluschi, a equipa mostra mais desvelo na gestão da bola e alimenta como nunca Varela, Falcao e, nesta noite, Mariano. Futebol total? Algo relativamente perto disso.

O segundo e terceiro golos foram uma mera questão de timing.

 

... e os golos do senhor do costume

A Naval, organizada e unida, raramente tirou a cabeça da carapaça. Mas assustou numa ou duas viagens à área do Porto. De qualquer forma, os rapazes da Figueira da Foz tiveram o mérito de bloquear com mérito os canais de ligação à baliza de Peiser.

Os últimos dois golos portistas apareceram somente nos últimos dez minutos e foram anotados pelos senhores do costume. Falcao, numa bela finalização de cabeça, e Varela, num pontapé certeiro.

Três pontos, enfim, no reencontro com a normalidade de um quotidiano azul e branco. Sem o atrevimento da perfeição, mas com o mérito da resolubilidade.

 

Fonte: maisfutebol

 
 
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