Por vezes, há colo que não chega, expulsão que não basta, perdão que não sobra. Sobretudo se, à mistura, mesmo do lado oposto, houver um pelotão de orgulho ferido, maltratado pelas incidências do jogo, que mais não fizeram do que acelerar a combustão do génio azul, provocando o cintilar imenso numa prova de esforço e raça. Numa exibição à Porto. Absolutamente à Porto.
Intenso, mais azul do que repartido, o jogo cresceu num ritmo aceso, direccionado, por natureza, à baliza de Quim, ao ponto de a primeira vintena de minutos ter obedecido, com um fervor quase religioso, à regra de sentido único.
Com o Benfica, por fim, em jogo, acelerações e sinais de golo tornaram-se mais frequentes, com Hulk numa espécie de olho do tornado que atraía a si um, dois, três, quatro opositores. A cada drible, a cada ameaça de remate.
À custa de Hulk, aquele sem o qual o campeonato não foi mais o mesmo, Guarín teve as redes em ponto de mira e Quim, um pouco mais tarde, a oportunidade de brilhar a remate cruzado do brasileiro.
Mas o golo, merecido, chegaria pela cabeça de Bruno Alves, imperial, soberbo, correspondendo a um pontapé de canto de Belluschi. O impensável estava reservado para depois, para lá do intervalo, quando um lance com muito mais para ser penalty foi transformado numa simulação, a pensar na expulsão de Fucile, no reequilíbrio da partida.
Da extraordinária decisão de Benquerença ao empate foi um instantinho. E daí à aplicação de um critério semelhante foi uma eternidade, numa demora perpétua e em vão, indiferente às quedas acrobáticas de Di Maria ou aos protestos sucessivos de Fábio Coentrão.
Prolongar a inferioridade numérica, só por si absurda, não derrubaria o FC Porto nem faria do Benfica campeão. Farías, isso sim. Na área, aguentando firme, a carga e a pressão, engrenou a marcha-atrás na festa previamente montada. Golo! E outros dois pareceram brotar dos pés de Guarín, frustrados por uma questão de centímetros. Um nadinha ao lado e, logo a seguir, em cheio na trave.
Depois… Depois foi Belluschi, num lance genial, numa sequência de dribles imparáveis, num remate indefensável, num instante de levantar estádios, gelando apenas a mais pequena porção das bancadas, a vermelha, que assistiu boquiaberta. Como Quim.
Justo não é, por isso, termo bastante para caracterizar a vitória portista. Mais do que justo talvez seja a expressão adequada, mais certa, mais… justa. Especialmente por todas as safadezas e privações que o j
ogo pregou ao Tetracampeão, na certeza, no entanto, de que ganhar assim sabe ainda melhor. Mesmo quando o resultado lhe fica a dever uma vantagem mais larga.
FICHA DE JOGO
Liga 2009/10, 29ª jornada
2 de Maio de 2010
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 44.902 espectadores
Árbitro: Olegário Benquerença (Leiria)
Assistentes: Bertino Miranda e José Cardinal
4º Árbitro: Cosme Machado
FC PORTO: Beto; Fucile, Rolando, Bruno Alves «cap» e Alvaro Pereira; Fernando, Belluschi, Raul Meireles e Guarín; Hulk e Farias
Substituições: Raul Meireles por Miguel Lopes (56m) e Farias por Rodríguez (61m) e Belluschi por Tomás Costa (90m)
Não utilizados: Nuno, Valeri, Maicon e Orlando Sá
Treinador: Jesualdo Ferreira
BENFICA: Quim; Maxi Pereira, Luisão, David Luiz e Fábio Coentrão; Javi Garcia, Ramires, Carlos Martins e Di Maria; Saviola e Cardozo
Substituições: Javi Garcia por Aimar (62m), Saviola por Weldon (66m) e Carlos Martins por Kardec (82m)
Não utilizados: Moreira, Luís Filipe, César Peixoto e Miguel Vítor
Treinador: Jorge Jesus
Ao intervalo: 1-0
Marcadores: Bruno Alves (42m), Luisão (56m), Farias (58m), Belluschi (83m)
Disciplina: cartão amarelo a Di Maria (5m), Fucile (5m e 52m), Fábio Coentrão (13m), David Luiz (15m); Javi Garcia (41m), Raul Meireles (45m), Ramirez (78m) e Maxi Pereira (90m); cartão vermelho a Fucile (52m).
Fonte: Fcporto.pt