Categoria: Rui Santos disse...

Rui Santos, no seu estilo habitual e inconfundível, analisa o jogo e a deslocação do FCPorto ao Olhanense, onde o resultado favoreceu os Dragões, por 3 bolas a 0, com destaque para a concretização de Falcao, que "bisou" nesta deslocação do FCPorto.

 

 

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Catorze dias depois das legislativas (27 de setembro), o País volta às urnas para eleger os seus representantes no universo do poder local (11 de outubro). Hermínio Loureiro, presidente da Liga, é candidato pelo PSD à Câmara de Oliveira de Azeméis. Se ganhar e tomar posse como líder da respetiva autarquia, coloca-se a questão, não do ponto de vista legal mas na perspetiva ética, das reservas que se devem colocar sobre o desempenho das duas funções - a de presidente da Câmara (se for eleito) e a de presidente da Liga.

 

Fora do âmbito da "pessoalidade" com que normalmente se abordam estas questões, há muito que se fala da promiscuidade entre o poder político e o poder que emana do futebol. Já todos compreendemos, noutras conjunturas e com outros protagonistas, que a relação entre o poder local e as autarquias nem sempre se estabelece em nome da salvaguarda de princípios éticos. Tivemos exemplos, mais ou menos recentes, de câmaras que mais pareciam sedes de clubes e clubes que mais pareciam sedes de campanha de certos políticos ou forças partidárias.

A atração que provoca a cadeira da tribuna que se situa exatamente ao lado daquela onde se senta o presidente de um dos três grandes clubes em Portugal é um dos fenómenos mais fascinantes das dependências entre nichos de poder.

Hermínio Loureiro não é um presidente remunerado na Liga. Recebe despesas de representação e, como vice-presidente da FPF, também não recebe salário. Ao que se sabe, Hermínio Loureiro vive do seu ordenado de deputado (dos mais assíduos) e de muito voluntarismo. A complexidade que o futebol adquiriu não se compadece, apenas, com voluntarismo. O futebol profissional exige um presidente profissional, que seja responsabilizado e de quem se possa esperar sempre mais e melhor.

Na Federação, não é assim. O presidente (Madaíl) é muito bem remunerado (para além das mordomias e compensações correspondentes ao cargo que detém no Comité Executivo da UEFA), assim como o secretário-geral (Ângelo Brou) e os estágios e os jogos fazem com que os (outros) diretores consigam amealhar importante "pé de meia". Há uma espécie de "inversão de valores" na estrutura do futebol português. Há amadores que ganham como profissionais e há profissionais que ganham como amadores. E há quem faça figura de profissional sem retirar o rendimento concomitante. Uma desgarrada imensa, em todo o caso sem que alguém se possa queixar. Há que estabelecer critérios, emagrecer as estruturas e redefinir estatutos.

O "estatuto do deputado" e a "lei das incompatibilidades" estabelecem algum pudor, mas sobre matéria de "acumulação de cargos" ainda se fecha os olhos a muita coisa. A Oliveirense acha-se no quadro competitivo regulado pela Liga e Hermínio Loureiro pode ganhar a autarquia de Oliveira de Azeméis. Repetia-se o cenário dos anos 90. Valentim Loureiro foi presidente da câmara (Gondomar), presidente de clube (Boavista) e presidente da Liga. Hermínio é Loureiro, mas não quererá ser o "Valentim dos pobres". Haverá coragem para pôr ordem nisto?

 

Fonte: Crónica de Rui Santos, Record

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