Categoria: Desporto

Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.

Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.

Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.

O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.

A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado - afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.

Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.

UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO

A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito - Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas... poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.

Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.

A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo - algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de "matéria delicada", a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.

Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o "amadorismo" existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?

Categoria: Desporto

A principal agitação, num defeso até então tranquilo, chegou de Alvalade. Com o FC Porto como pano de fundo num enredo centrado em João Moutinho. O capitão do Sporting já manifestara o seu desejo de rumar a outras paragens. No ano passado, se bem que numa fase ainda mais adiantada, Moutinho revelou publicamente o seu desejo em sair e viu com bons olhos o interesse do Everton. Seria a possibilidade de, depois de quatro anos ao mais alto nível, conseguir um salto na carreira. O negócio acabou por não se concretizar e os leões, sobretudo por acção de Paulo Bento, que sempre o considerou um indiscutível, fizeram força para o manter. Apesar de algo fragilizado, acusado pelos adeptos de ter errado ao assumir querer mudar-se, continuou no clube. A sua última época, contudo, à semelhança de toda a equipa, foi discreta. O desempenho de Moutinho terá sido, porventura, o mais modesto desde que começou a jogar no Sporting.

Feito jogador no Sporting, saltando dos juniores para a equipa principal e com posição cimentada sob o comando de Paulo Bento, a relação de João Moutinho com os adeptos ficou algo comprometida,
devido ao atrito criado no início da época. Sem possibilidade de se mostrar no Campeonato do Mundo, uma vez que não fez parte dos eleitos de Carlos Queiroz para rumar à África do Sul, as possibilidades de saída pareciam, apesar de tudo, remotas. No arranque da nova época, há pouco mais de uma semana, o jogador demonstrara uma maior insatisfação pela continuidade e o próprio clube - quando, por exemplo, foi noticiado que, por decisão de Paulo Sérgio e Costinha, Moutinho poderia perder a braçadeira de capitão - deu sinais de que não pretendia, mesmo reconhecendo a valia do jovem médio, ter um elemento contrariado no seu plantel. De súbito, sem que nada o fizesse prever, o FC Porto atacou em força. E com eficácia.

João Moutinho ainda não é oficialmente jogador do FC Porto. A verdade, porém, é que se trata apenas de uma questão de horas. O interesse portista, já assumido há um ano por parte de Pinto da Costa, que via no então capitão do Sporting um jogador à Porto, moveu João Moutinho a rumar ao Dragão. Se bem que ainda não estejam acertados todos os detalhes, de acordo com o que tem sido possível apurar, o negócio deverá envolver um pagamento de dez milhões de euros (um record em transferências feitas entre clubes portugueses, mas menos de metade da cláusula de rescisão que o jogador possui no seu contrato com o Sporting - 22,5 milhões) e ainda a inclusão, por parte do FC Porto, de Nuno André Coelho - um central raramente utilizado pelos dragões, com apenas sete jogos na última época, embora seja tido como um valor seguro para o futuro. Nas últimas horas o nome de Farías também tem sido avançado como moeda de troca.

Pela qualidade do jogador, o FC Porto faz um excelente investimento. Para além de ter as tais características que suscitaram o encantamento de Pinto da Costa, garra e ambição, Moutinho é técnica e tacticamente evoluído e, apesar de ter vivido uma época de menor fulgor, já mostrou tratar-se de um valor seguro. João Moutinho será, para a nova equipa que começa a ser delineada por André Villas Boas, uma pedra importante no reforço do meio-campo - tendo em conta, também, uma mais do que provável saída de Raúl Meireles. Financeiramente, num momento em que os clubes sentem cada vez maiores dificuldades para apretrecharem convevientemente os seus plantéis, dez milhões de euros (caso se confirme) é um número elevado. No entanto, se tivermos presente que João Moutinho deixa o Sporting por menos doze milhões e meio do que o estabelecido na cláusula de rescisão, é bom. Muito bom.

Na perspectiva do Sporting há duas formas distintas ver a venda de João Moutinho. Por um lado, representa a perda do capitão, um jogador titularíssimo e, por isso, tido como fundamental na manobra da equipa. Saindo por um valor bem inferior ao da cláusula é mais um motivo de contestação à política de José Eduardo Bettencourt. Existe, contudo, quem veja o negócio como benéfico para os leões. Moutinho, afinal, já revelara vontade de sair e, por certo, não teria para Paulo Sérgio o mesmo relevo que para Paulo Bento e Carlos Carvalhal. O clube recebe dez milhões de euros (que só não convencem os sportinguistas devido à cláusula), um jogador vindo do FC Porto e terá, à partida, um encaixe de trinta por cento numa eventual venda. Seja como for, o que parece mais correcto afirmar é que os dragões ganham um reforço de peso e Moutinho, terminando um ciclo no Sporting, terá todas as condições para ser valorizado no Dragão.

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