Categoria: Desporto

UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS

O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.

Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.

Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.

CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE

Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.

A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.

OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM

A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.

Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.

Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.

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Ter um original e uma cópia não é bem a mesma coisa. À primeira vista pode parecer igual, sem diferenças, tudo bem detalhado. Depois, bem diferente, são as caricaturas. Não querem semelhanças, evitam-nas. Pretendem, antes, destacar os defeitos, as imagens de marca, o que pode ser ironizado. O original da selecção francesa, por exemplo, é fortíssimo: equipa vencedora, campeã mundial por um vez e europeia em duas, habituada a glória, uma potência futebolística. Não engana. No Mundial 2010, contudo, esteve uma França caricaturial. Equipa sem força, sem garra, sem génio, sem rumo. Tudo aquilo que uma selecção como a francesa tem de combater e ser o completo oposto. Houve ainda todo o tipo de casos. O resultado nunca poderia ser bom: a França cai na fase de grupos, saindo pela porta dos fundos, com apenas um ponto.

O Mundial 2010, para a França, começou torto. Os franceses não conseguiram garantir o apuramento directo, ficando atrás da Sérvia - uma estreia em Campeonatos do Mundo - e estando, por isso, obrigados a disputar o playoff. A República da Irlanda, selecção emergente comandada por Giovanni Trapattoni, foi o adversário. Após prolongamento, Gallas marcou. O golo correu Mundo, visto e revisto milhões de vezes. Houve batota: Henry recebera a bola com os braços, antes da assistência. Martin Hansson, o árbitro sueco, apontou para o centro do relvado. Shay Given saltou da baliza, protestou, olhou atónito. Trapattoni, experimentado, enlouqueceu. Num ápice todos se juntaram aos irlandeses: a França não merecia chegar à África do Sul. A verdade é que, com ou sem polémica, foram os franceses a garantir a vaga.

A França, pelo seu prestígio, é sempre uma selecção a considerar para chegar longe. A uma eventual vitória, repetindo o triunfo no Mundial de 1998, onde foi anfitriã, talvez não. Os franceses sentem-se, ainda, orfãos de um líder, de um génio, de alguém que seja verdadeiramente decisivo. Sentem, no fundo, falta de Zidane. Há Henry, Ribéry ou Malouda, sim, mas nenhum deles se assume como o homem que impede, como numa pequena aldeia gaulesa, que o céu lhes caia em cima da cabeça. Também Raymond Domenech sempre fez por ser diferente. Poderia sê-lo de forma positiva; não é, preferiu tentar ser engraçado do que ficar na graça dos adeptos. Nunca foi bem visto. E nunca deixou aquele seu ar fechado, sisudo, enfadonho e sem sorrisos. As opções que toma tornam-no ainda mais incompreensível. A exclusão de Benzema do Mundial é um exemplo.

Jogar com alegria é um dos princípios para se ser bem-sucedido. Passar, correr, fintar, divertir-se enquanto o faz. Jogar para ganhar, com profissionalismo, mas retirando o maior prazer disso. À França, mais do que qualquer coisa, falta vontade. Os jogadores estão no campo, posicionados, parecem preparados para o jogo. Não estão, porém. Fazem figura de corpo presente, quase que cumprem uma obrigação, não têm chama. A motivação que deveria estar inerente a um jogo assim, onde o país é representado na maior prova de selecções a nível mundial, perde-se. A equipa é a imagem do treinador, da tal frieza de Raymond Domenech, não há uma ideia comum ou um objectivo definido. A França quer ganhar mas não faz por isso. É, então, sinónimo de fracasso. A selecção francesa, depois do alerta no apuramento, nunca se endireitou.

Sempre que algo corre mal parece que não há nenhum antídoto capaz de travar a má onda. É a Lei de Murphy, onde tudo o que é mau vem por acréscimo, no seu esplendor máximo. Os franceses não o souberam prevenir. A própria Federação, inicialmente, tem uma grande parte das culpas: não há explicação para que, na antecâmara do início do Mundial 2010, Raymond Domenech tenha sabido que irá, após a aventura na África do Sul, ceder o seu lugar. Todas as situações que ao longo dos tempos se foram acumulando tiveram reflexo na prestação no Mundial. Tendo como adversários a equipa anfitriã, Uruguai e México, os franceses falharam a toda a linha: nulo com os uruguaios, derrota inapelável frente aos mexicanos que deixou o au revoir à porta e, por fim, um novo desaire, já com a selecção envolta num mar de polémica, com a África do Sul.

Um ponto, um golo marcado e quatro sofridos. Os números, para uma selecção com o estatuto da França, são confrangedores. Juntam-se aos maus resultados e mau futebol, apático e inconsequente, todos os problemas internos, numa espécie de Saltillo à francesa, que afectaram os gauleses. A expulsão de Nicolas Anelka, após ter insultado o treinador Raymond Domenech no intervalo da partida com o México, foi o ponto de partida para a demissão do líder da comitiva francesa e ainda para a greve a um treino, em solidariedade com o avançado do Chelsea, que levou a um desentendimento entre Patrice Evra, um dos capitães, e um elemento da equipa técnica. Tudo isso somado só poderia dar insucesso. É causa e consequência de uma selecção à deriva, sem rei nem roque, incapaz de lutar contra a fatalidade do destino. A França corou.

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TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA

Portugal não gosta de jogar sob brasas. Ninguém deve gostar, aliás. Sempre que é favorito, encontrando equipas de menor qualidade, a selecção nacional tem tendência para se apagar, deixar-se ir na onda adversária, caindo nas teias que os rivais procuram lançar para impedir os seus avanços. Frente à Coreia do Norte, uma selecção frágil mas que estivera bem ante o Brasil, não havia volta dar: Portugal tinha mesmo, para se manter vivo, que vencer. Tremeu no início, acalmou com um golo de Raúl Meireles, o talismã decisivo, e embalou para um resultado histórico. Com naturalidade, marcou o segundo, o terceiro e o sétimo - sim, foram sete! - golos. As tormentas ficaram para trás. De vez? A exibição, pelo menos, convenceu: Raúl emergiu, Tiago deslizou pelo relvado, Fábio Coentrão explodiu.

Imagine-se a jogar contra um muro. Tenta, circula, encontra alternativas e o resultado é sempre o mesmo. Nunca consegue furar a barreira que tem à frente. A bola bate, vem para trás, recomeça-se o ciclo. Efeitos é que nada. Contra a Costa do Marfim, mesmo sem ser realmente incisivo, o jogo de Portugal foi isso. Com a Coreia do Norte, um adversário sem expressão e sem os gigantes costa-marfinenes, não seria muito diferente. Os coreanos defenderiam, Portugal atacaria, a resistência da muralha ditaria a sorte. Nestes casos, sempre que uma equipa quer marcar e outra quer defender, o tempo costuma ser decisivo. Diz-se, até, que o primeiro golo é o que custa mais. Depois daí, quando o caminho estiver aberto, será mais fácil. Chegar cedo à vantagem é a primeira premissa para o sucesso. Depois resta colocar em prática o talento.

A única diferença é que este é um muro activo. A Coreia do Norte, pelo que demonstrara com o Brasil ao colocar-se em bicos de pés perante o papão brasileiro, reclamou algum protagonismo. É uma selecção frágil e bem abaixo dos outros adversários do grupo. Isso é aceite. Mas não significa que, só por ser o patinho feio, não tenha as suas armas. Num dia bom, de inspiração, pode surpreender. O perigo para Portugal, num jogo de vitória obrigatória, estava precisamente no desconhecimento da selecção asiática, algo que poderia ser um mau início. Apesar de todas as preocupações defensivas, colocando-se em alerta máximo para travar a progressão portuguesa, a Coreia do Norte pretendia também aventurar-se no ataque. Mostrar que não era um mero figurante. Tae Sae e Pak Nam Shol assustaram Eduardo. Não seriam favas contadas.

RAÚL, ABRES A ENCOMENDA?

Portugal começara bem: a cabeçada de Ricardo Carvalho esbarrou no poste. Mas sem ser muito pressionante, falhando passes, a selecção portuguesa concedeu espaço para os avanços norte-coreanos. Chegou a tremer, com o fantasma do último jogo na memória, não marcando o seu território. A diferença havia de ser feita pela qualidade individual. E, aí, não restam dúvidas de que Portugal ganha de goleada. Raúl Meireles é um jogador que trabalha na sombra, nunca chegando ao estatuto de maior estrela, joga com afinco e cumpre o que lhe é pedido. Está lá sempre, por vezes algo escondido, conseguindo emergir nos momentos decisivos. Em Zenica, frente à Bósnia, carimbou a passagem para o Mundial. Com a Coreia repetiu-o: soltou-se, entrou na área, recebeu um passe soberbo de Tiago e fuzilou. Apareceu à socapa para quebrar o nulo.

O primeiro golo, o que se dizia ser o mais difícil, estava feito à meia-hora. Portugal encontrara uma brecha na defesa norte-coreana e marcara. Em vantagem, a selecção portuguesa ficou como gosta. Soltara-se das amarras, da pressão, poderia jogar a toda a largura, com tranquilidade, na busca de mais golos. Marcar mais, neste fase de grupos, pode ser crucial. A Coreia já demonstrara fragilidades e tinham de ser exploradas. Já sem a ânsia de marcar, de impedir que o nulo se prolongasse, entrando numa fase de ansiedade. Havia que manter o mesmo ritmo, a mesma intenção, sem baixar a guarda. Ficara bem visível que a Coreia não se iria desfazer das suas ideias, não arriscaria muito nem abriria mão das suas cautelas. Raúl Meireles, de novo aparecendo na área de Ri Myong Guk, falhou o segundo. Seria ouro.

UMA COREIA À MERCÊ DA FÚRIA PORTUGUESA

Kim Jong Hun teria que fazer algo mais. Chegara ao intervalo a perder. A sua Coreia do Norte tivera um início auspicioso, com algumas situações incómodas para Portugal, mas acabara por ficar submersa. O golo de Raúl Meireles quebrara os coreanos. Importava, por isso, procurar algo mais, ser mais expedito. Portugal não o permitiu. Entrou determinado, ambicioso, diabólico. Em sete minutos, com uma intensidade ofensiva altíssima, jogando bem, mostrando enfim a sua técnica, a selecção portuguesa matou as aspirações coreanas. Tudo correu às mil maravilhas. Simão marcou assistido por Raúl Meireles, novamente jogando em profundidade, nas costas da ingénua defesa da Coreia do Norte. Hugo Almeida e Tiago, em cima da hora de jogo, engordaram o resultado. Com naturalidade. Firmando as diferenças entre as duas equipas.

A Coreia do Norte, a partir do quarto golo, acenou a bandeirinha branca. Rendera-se, estava entregue. Já perdera a razão, restava o coração. Esperava por clemência. Não a teve. Nem poderia, porque, como se disse, os golos poderão decidir as contas do apuramento. Hiper-moralizado, com o tudo a seu favor e sempre encontrando espaço para progredir, Portugal quis ainda mais. Estava confortável, jogando bem, imperial sobre o relvado. A finalização, tantas vezes uma maldita dor de cabeça, mantinha-se com uma percentagem categórica. Faltava Cristiano Ronaldo. O avançado do Real Madrid assistira Tiago para o quarto golo, mas continuava a faltar-lhe marcar. Tentou-o. Correu, fintou, entrou na área. Não conseguiu. Acertou, de novo, nos ferros da baliza contrária, como no jogo de estreia. Estava guardado para o final.
 

Antes disso, porém, houve ainda Liedson. O Levezinho foi suplente, cedendo o seu lugar a Hugo Almeida, que respondeu com um golo, mas entraria. Era um bom momento para se reencontrar com os golos. Foi por seu intermédio que surgiu o quinto tento português. Uma mão-cheia, tudo óptimo, tudo nos conformes. Ronaldo lá continuava a tentar. Meneia a cabeça, sorri, nada feito. Mas a sorte, antes de costas voltadas, havia de estar com ele: isolou-se, tentou passar pelo guarda-redes Ri, foi travado, a bola saltou-lhe para o pescoço, deslizou e caiu no pé. Golo numa baliza deserta. Não estivera muito em jogo, demonstrara dificuldades, mas ganhara no final. Para terminar, fixando um resultado histórico, Tiago, de cabeça, bisou. Sete golos, moral em alta, passo importante rumo aos oitavos-de-final. O Mundial começou agora, Portugal!

Mundial 2010

Colocado: 06/20/2010 - 1 comentário [ Comentar ] - 0 trackback(s) [ Trackback ]
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O QUE SE JOGOU ATÉ AGORA!

 

O Campeonato do Mundo de 2010 começou há uma semana e dois dias. Jogaram-se, neste período, vinte e seis jogos. Nove deles resultaram em empate. Desde cedo se percebeu que este seria um Mundial diferente. Realizado pela primeira vez no continente africano, na África do Sul, ficou marcado, à partida, pela propalada insegurança e pelas enormes diferenças existentes com a realidade europeia a que nos habituamos. Surgiram as vuvuzelas, com o seu ruído ensurdecedor, e a Jabulani, a bola oficial criticada por todos, sobretudo pelos guarda-redes, que é acusada de causar sérios danos. Em nove dias de prova, com surpresas, bons momentos e verdadeiros frangos pelo meio, o certo é que os adeptos de futebol ainda não assistiram a espectáculos verdadeiramente envolventes. Contudo, as amarras da primeira jornada, demasiado conservadora, parece estarem a perder força. O futebol só tem a ganhar. E os adeptos.

Um apuramento e um hat-trick argentino.
A Holanda, com duas vitórias, foi a primeira equipa a garantir o apuramento para os oitavos-de-final do Mundial. Mesmo não deslumbrando, como a Holanda do Euro 2008, a Laranja Mecânica venceu a Dinamarca e o Japão, conseguindo o passaporte para seguir em frente. Gonzalo Higuaín, avançado argentino, entrou na história do Mundial 2010 como o primeiro jogador a conseguir um hat-trick. Na segunda jornada, no grupo B, a Argentina confirmou as indicações deixadas com a Nigéria, mostrando-se candidata, e, mantendo a ofensividade e a descomplexidade própria de Maradona, venceu a Coreia do Sul, com um enorme contributo de Higuaín - o último a marcar três golos, no Campeonato do Mundo da Ásia, havia sido Pauleta, na partida frente à Polónia, na única vitória portuguesa na fase de grupos (4-0).

Favoritos? Mostrem-no!
Campeã mundial, elenco de estrelas, grande candidata à vitória, inédita, no Mundial da África do Sul. A Espanha foi apontada, a par do Brasil, como selecção com mais créditos para chegar longe e poder ambicionar uma triunfo em 2010. Mas começou mal. Perdeu, surpreendentemente, frente à Suíça, num golo de Gelson Fernandes, trapalhão e feliz, que travou a euforia espanhola. Ottmar Hitzfeld, o experientíssimo seleccionador da selecção helvética, preparou um plano, com duas linhas bem compostas, que taparam espaço e impediram que os espanhóis, com Xavi e Iniesta, colocassem em prática o seu futebol rendilhado. Os suíços atiraram areia para o carrossel espanhol. Foi um revés, um alerta, na estreia no Mundial - há ainda jogos com Honduras e Chile. Espanha tem valor certo mas há que o provar. Só assim poderá ser mesmo candidata.

Entre margens: bom e mau.
A Alemanha começou em grande: vitória, boa exibição, goleada. Foi, aliás, a primeira exibição a conseguir um resultado gordo, quebrando a monotonia, num triunfo, por quatro golos, sobre a Austrália. Dos crónicos candidatos, a par da Argentina, foi quem melhor confirmou as credenciais. No segundo jogo, com a Sérvia, quando se esperaria que os alemães mantivessem a boa fase e dessem um passo fundamental rumo ao apuramento, a selecção de Joachim Löw deixou-se surpreender. Os sérvios, comandados por Radomir Antic, num jogo intenso e vivo, chegaram à vantagem e conseguiram manter a vitória até final - pelo meio, Stojkovic, guarda-redes ligado ao Sporting, parou uma grande penalidade de Podolski. Os alemães, que tão bem haviam estado, claudicaram. O terceiro jogo, frente ao Gana, será decisivo. Os ganeses lideram.

Tradição ou fragilidade?
Parece sina: a Itália começa mal. Ora, isso não é sinónimo de uma participação desastrada e mal-sucedida. Apesar de arrancar mal, conseguindo pouco mais do que os mínimos na fase de grupos, os italianos emergem nos jogos a eliminar. O expoente máximo de uma falsa partida que terminou em glória para a selecção transalpina foi dado no Mundial de Espanha, em 1982, quando a Itália, com Paolo Rossi, completou a fase de grupos com três empates e conseguiu, depois, vencer o título mundial. A entrada no Mundial 2010, seguindo a tradição, também não foi feita com o pé direito: a selecção comandada por Marcello Lippi, campeão mundial em 2006, não foi além de um empate, a um, frente ao Paraguai. O resultado de estreia, numa exibição sempre num futebol à italiana, não satisfez. Só para manter a tradição ou, agora, um sinal de fragilidade?

Ao pé coxinho.
De Portugal, sobretudo em termos exibicionais, esperava-se bem mais. Os portugueses, na estreia ante a Costa do Marfim, mostraram pouca garra, pouca vontade de arriscar e imenso medo em começar com uma derrota. Seria sempre mau fazê-lo, naturalmente, ainda para mais frente a um adversário directo no que toca às contas do apuramento. Na segunda jornada, na partida com a Coreia do Norte, considerado como adversário mais frágil mas que causou algumas inesperadas preocupações ao todo-poderoso Brasil (vitória, exibição satisfatória), a selecção portuguesa terá de jogar de forma mais aberta para que consiga uma vitória. Da Costa do Marfim, jogando no erro de Portugal, também era expectável algo mais, até pela classe dos jogadores daquela que é tida como a melhor equipa africana. Precisam de mais.

A desilusão.
A França é a maior desilusão. Equipa apática, amorfa, sem assomo de alegria, incapaz de fazer frente às adversidades. À imagem de Raymond Domenech, tristonho e carrancudo, um seleccionador nunca bem visto e agora alvo principal da ira dos adeptos franceses, envergonhados pela prestação da sua equipa. Nada de acordo com o prestígio, o estatuto e o historial que os gauleses, finalistas vencidos do último Mundial, possuem. Num grupo, onde à partida seriam os principais favoritos a garantir a passagem, apesar da chegada atribulada à África do Sul, com México, Uruguai e África do Sul, os franceses coraram pelas más prestações. Um nulo com os uruguaios e uma derrota, inapelável, frente aos mexicanos, uma boa surpresa, deixam a França em maus lençóis. Há que ganhar e esperar. Au revoir, Raymond?

Os destaques sul-americanos.
A Argentina, embora ainda não tenha assegurado a passagem aos oitavos, mostrou bom futebol, sempre colocando os olhos na baliza adversária, e alcançou duas vitórias: uma sobre a Nigéria e outra, robusta, frente à Coreia do Sul. Está fortalecida e muito próxima da passagem. A agora selecção de Diego Armando Maradona tenciona repetir os feitos no México, quando tinha El Pibe como estrela. Para além dos argentinos, há ainda Uruguai e México, selecções que ocupam os dois primeiros lugares, com quatro pontos, no grupo A - um empate, quando se defrontarem na última jornada, permitirá a passagem a ambos. Também o Paraguai, que empatou com a Itália, e o Chile, que lidera o grupo da Espanha, surpreenderam na primeira ronda. Resta perceber se terão capacidade para dar continuidade.

Bronca: Anelka e Domenech.
Raymond Domenech, ainda seleccionador francês, com a continuidade riscada em detrimento de Laurent Blanc, é um homem difícil. Sempre foi. Para os franceses, apesar de ter chegado à final em 2006, nunca foi bem visto. Provocador, incompreensível nas palavras e nos actos, pouco claro para explicar as suas opções. Num período tão conturbado para os gauleses, é sobre si que recaem grande parte das críticas dos apaixonados adeptos. Domenech, ante o México, necessitava de arriscar, não o fez, deixou Henry e Anelka no banco. O avançado do Chelsea insurgiu-se contra o seleccionador, contestou-o, insultou-o e recusou-se, depois, a pedir desculpas. Recebeu, claro, guia de marcha para regressar ao seu país. Sinal evidente das dificuldades sentidas pela França devido ao seu desastrado arranque na prova.

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Terceiro dia de competição e entramos na fase dos jogos amorfos, sem brilho, excepção feita à sempre candidata Alemanha, que não deixa os seus créditos por pés alheios e venceu facilmente o seu jogo, com goleada. Nos outros encontros, muito fraquinhos e sensaborões, vitória do Gana com uma infantilidade de Kuzmanovic (mão desnecessária na área); no outro jogo, a Eslovénia, com exibição fraca, venceu a Argélia, que jogou melhor, com um frango monumental de Chaouchi. Esta jornada trouxe a primeira vitória africana (Gana), a primeira grande penalidade, três expulsões (uma em cada jogo) e o resultado mais desnivelado até agora: 4-0 da Alemanha. O dia valeu por isso, ver jogar os alemães.

Argélia-Eslovénia (0-1): Frango apurado em jogo sensaborão

Jogo fraco com mais cautelas defensivas do que iniciativas atacantes. Ainda assim melhor a Argélia, mas com muita ingenuidade à mistura. O golo teria que surgir de um bambúrrio da sorte, ou do azar, neste caso. Chaouchi, guarda-redes argelino, imitou Green e deu um frango monumental a onze minutos do fim. Foi a primeira vitória da Eslovénia numa fase final do Mundial e festejada com pompa e circunstância, até porque lidera o Grupo C.

Sérvia-Gana (0-1): A mão que embala a vitória

O segundo jogo do dia foi mais agradável, mas sem deslumbrar. Mais afoitos, atrevidos e com mais velocidade os jogadores do Gana. Mais tecnicistas mas mais ingénuos os jogadores da Sérvia, que têm bons executantes, mas fraco colectivo. A vitória caiu para o lado africano com uma ingenuidade de Kuzmanovic que estendeu o braço para a bola, naquela que foi a primeira grande penalidade do Mundial. Foi a primeira vitória de uma selecção africana neste Mundial, curiosamente, treinada por um sérvio, Milonav Rajevac, que recusou festejar. Que se saiba ninguém levantou grandes objecções e acusou o homem de anti-patriota. Pois não, Toni?

Alemanha-Austrália (4-0): Máquina alemã com O(z)il de qualidade

Dúvidas que a Alemanha é sempre uma candidata? Foi até agora a exibição mais convincente de um candidato, e já vimos Argentina e Inglaterra. Goleada sem apelo nem agravo, pese embora a má prestação do árbitro mexicano Marco Rodriguez. Uma grande penalidade por assinalar contra a Alemanha (resultado em 2-0) e uma expulsão (Cahill) exageradíssima. Mas uma má arbitragem em oito jogos não é mau. Boa foi a exibição germânica, uma máquina que apareceu bem oleada sob a influência do jovem (21 anos) Ozil, que tem um excelente pé esquerdo, finta curta e letal e bons passes de ruptura. Esta é até a arma mais forte dos alemães, com Müller, Klose e Podolski a serem exímios nas diagonais, que executaram na perfeição nas costas da defesa contrária. Resumindo, temos candidato.

MINHA ÁFRICA é um espaço de Bernardino Barros sobre o Mundial 2010

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A época anterior do FC Porto, após quatro anos de glórias, resume-se a uma palavrinha a que todas as equipas querem fugir e não ousam, sequer, pensá-la: fracasso. Tornou-se, por isso, obrigatório mudar. Um ciclo fechou-se. Foi o de Jesualdo Ferreira. O treinador tem méritos no tricampeonato (o primeiro título fora conquistado por Co Adriaanse), foi importante na cimentação de vários jogadores e apareceu sempre em defesa dos dragões. Jesualdo cresceu como técnico e fez crescer o clube. Chegou, contudo, a hora do divórcio. A temporada não correu bem e há essa necessidade de mudança no FC Porto. Pinto da Costa virou a página, rompeu com o anterior paradigma. O anúncio oficial da contratação de André Villas Boas serviu para mostrar essa vontade de injectar sangue novo na equipa. E a de correr um tremendo risco. A aposta está feita.

Pela juventude de Villas Boas e pela obrigatoriedade de superar a temporada transacta que assiste ao FC Porto, a escolha do ex-treinador da Académica seria sempre muito arriscada. Em momentos de aperto, como foi este caso dos dragões, seria mais natural que os responsáveis optassem por alguém mais calejado, experiente e conhecedor da realidade do futebol português. André Villas Boas tem a seu favor o facto de ser portista, ter entrado muito jovem no clube e o conhecer bem. Há, porém, neste jogo de prós e contras, alguns factores que, com normalidade, fazem com que a sua contratação seja vista com desconfiança: apenas iniciou a carreira de treinador em Outubro, após deixar as estatísticas e observações que durante sete anos fez na equipa técnica de José Mourinho, e, apesar da melhoria vislumbrada no futebol da Académica, nada provou ainda.

Em Outubro passado, com a Académica na última posição, José Eduardo Simões, líder dos estudantes, abriu as portas a André Villas Boas. O até então colaborador de José Mourinho deixou o Internazionale para apostar verdadeiramente na carreira de treinador principal. A sua entrada melhorou substancialmente a Académica: futebol positivo, com os olhos colocados na baliza adversária, tentando usar as suas armas para supreender os rivais. Com isso, naturalmente, os estudantes ascenderam na classificação. André Villas Boas rapidamente se tornou num treinador na moda. Houve quem nele visse um verdadeiro discípulo de Mourinho e o Sporting, antes de Carlos Carvalhal, manifestou interesse na sua contratação. O estado de graça do treinador acabou por ficar algo afectado pela ponta final da Académica - conseguindo a manutenção mais dificilmente do que era expectável após a sua chegada.

A Académica foi, afinal, apenas um ponto de passagem para André Villas Boas. Funcionou como trampolim para, em poucos meses, assumir o comando do FC Porto. Com apenas trinta e dois anos, onde Jesualdo Ferreira chegou com sessenta, Villas Boas tornou-se no mais jovem treinador de sempre nos portistas. O tempo passado em Coimbra bastou para Pinto da Costa, com toda a sua experiência, apostar todas as fichas disponíveis. A André Villas Boas, os portistas pedem que mantenha as ideias que implementou na Académica, com um futebol vistoso e envolvente, que consiga tirar partido da escola privilegiada que teve com Bobby Robson e José Mourinho e dos maiores recursos que lhe colocarão à disposição, para recolocar o FC Porto no caminho das conquistas (voltando a roubar o título nacional ao Benfica). O desafio será triplo: para o FC Porto e para André Villas Boas, sobretudo, mas também para comprovar o sucesso da aposta pessoal de Pinto da Costa.

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