Sem meios-termos, olhando em jeito de balanço ao que se jogou no campeonato nacional, sai a primeira pergunta: o Benfica foi um justo campeão? É uma tendência dizer-se que sim, que o Benfica tem muito mérito no título que conquistou, suou para isso, foi melhor do que os adversários e mereceu os festejos. Pedro Azevedo, editor de Desporto da Rádio Renascença, não hesita. A resposta é pronta, pragmática e suportada na frieza dos números: "O Benfica teve o melhor ataque, melhor defesa (a par do Sp.Braga), foi a equipa que agradou mais em termos exibicionais, a mais espectacular, com mais vitórias, menos derrotas, melhor futebol e mais regularidade. Tudo isto somado dá um justo vencedor, indiscutivelmente", afirma. O investimento encarnado deu total retorno: "Teve um plantel muito bem apetrechado sob o ponto de vista técnico, com jogadores em grande nível exibicional e também com grande regularidade".
Apesar do seu reconhecido talento, o Benfica foi obrigado a esperar pelo derradeiro jogo para festejar. Por obra alheia. O Sp.Braga, uma surpreendente equipa que se intrometeu na luta pelo título, correndo pela História, adiou a coroação benfiquista. Os bracarenses foram guerreiros na verdadeira acepção da palavra, nunca baixaram a guarda. Para Pedro Azevedo, contudo, ainda não se pode juntar o Sp.Braga ao grupo de top nacional: "Um grande não nasce de um dia para o outro. Nasce após muitos e muitos anos de consistência: de resultados e de força social. O Sp.Braga terá de crescer em número de adeptos, de sócios efectivos, em orçamento, em apoios, em sponsors. Só dentro de alguns anos é que podemos dizer se temos efectivamente um quarto grande no futebol português", afirma. "O Sp.Braga ainda não tem força social - basta recordar que, para encher o estádio, teve que abrir as portas e fora, quando conseguiu grandes assistências, teve que oferecer bilhetes".
O SUCESSO DE JORGE JESUS E DOMINGOS PACIÊNCIA
Jorge Jesus é um treinador de amor e ódio. Idolatrado pelos benfiquistas que vêem nele um obreiro do título e o criador de uma equipa forte como há muito não tinham na Luz. Os adversários, claro, apontam defeitos: é arrogante, é egocêntrico, é espalhafatoso. "Goste-se ou não se goste de Jorge Jesus, daquele seu estilo, daquela sua linguagem, é um treinador de sucesso, porque pegou num Benfica que há cinco anos não ganhava o campeonato e levou-o ao título. Tem grande mérito nisso", afirma Pedro Azevedo, ressalvando ainda a conquista da Taça da Liga. Para o jornalista da Rádio Renascença, o treinador encarnado, culminando uma subida a pulso com a conquista do título nacional, revelou-se "um excelente gestor de recursos humanos". "Di María, Saviola, Javi García e Óscar Cardozo são jogadores que, de facto, se exibiram a um nível muito elevado; a adaptação de Fábio Coentrão também foi um sucesso; Maxi Pereira sempre foi regular", exemplifica.
O que dizer, então, de Domingos Paciência? O jovem treinador do Sp.Braga ultrapassou o seu exame final, depois de ter estado em bom plano na Académica, demonstrando ter inúmeras capacidades como técnico e um horizonte risonho pela frente. O Sp.Braga foi uma etapa plenamente cumprida. "Já não há palavras para qualificar um trabalho de altíssima qualiade de Domingos Paciência, é um treinador quem, degrau a degrau, vai mostrando ter grande futuro. Soube lidar com um grupo que não tem comparação em termos de orçamento com os chamados grandes, soube segurar a pressão, teve um discurso prático, dizendo que atacava o título quando o devia ter feito. Por isso, acho que foi, também, um bom condutor do projecto do Sp.Braga, o projecto possível, mas que se revelou numa época absolutamente excepcional, histórica e, desconfio, irrepetível", diz Pedro Azevedo.
FC PORTO: UM TETRACAMPEÃO SEM ESTATUTO
O FC Porto partiu como tetracampeão. Na linha da frente. Acabou, contudo, em terceiro, suplantado pelo Benfica no título e pelo Sp.Braga no acesso à Liga dos Campeões. Em relação à época anterior, há apenas uma diferença de dois pontos. Pode o mérito dos rivais explicar o falhanço? "Eu acho que os campeonatos só são comparáveis dentro do próprio campeonato: confrontos directos, diferença de pontos, exibições e resultados que se verificam nos jogos decisivos. Cada campeonato, sua história. O FC Porto, efectivamente, soma em 2009-10 o seu pior registo dos últimos trinta anos, apenas comparável ao de 2002 (também terceiro) e ao de 1982 (quando Pinto da Costa tomou conta do clube). Só estes números dizem que a época é francamente negativa e temos que somar uma saída humilhante da Liga dos Campeões e uma derrota categórica na Taça da Liga", relembra. Muito mais se esperaria dos dragões.
Pedro Azevedo tem uma opinião curiosa sobre o plantel azul: "Ao contrário do que foi dito, o FC Porto não ficou muito descapitalizado em termos qualitativos. Basta recordar que saíram três jogadores muito importantes - Lucho, Lisandro e Cissokho -, mas entraram três reforços e meio muito bons", refere. "Alguns dos reforços não resultaram, mas isso acontece em todas as equipas e esses que não resultaram não são responsáveis por nada, porque praticamente não jogaram", firma. O problema residiu, segundo Pedro Azevedo, na táctica: "Pessoalmente, acho que aquilo que falhou foi a falta de afinação táctica, ou seja, o FC Porto deste ano jogou com o sistema do ano passado. Com jogadores diferentes, estilos de jogo diferentes. O FC Porto teria de jogar no esquema que utilizou nestes últimos dez jogos", argumenta. Os verdadeiros reforços do FC Porto são fáceis de adivinhar: Álvaro Pereira, Radamel Falcao e Silvestre Varela.
"Álvaro Pereira foi uma das grandes revelações, foi o jogador mais utilizado do FC Porto com mais de quatro mil minutos e sempre numa bitola idêntica; Falcao conseguiu ser o melhor marcador desde a era Jardel e, inclusivamente, não fossem dois ou três golos mal anulados, mas são circunstâncias do jogo das quais hoje ninguém se pode lamentar - é apenas um dado estatístico - até seria o melhor marcador do campeonato; Varela, relacionando o preço e a qualidade, tratou-se de uma grande compra", explana. Falta a meia-aquisição. É Belluschi: "Estou convencido, por aquilo que fez nesta ponta final, que, depois deste ano de adaptação, será uma confirmação". Há, ainda, a questão de Hulk. Jogador influente, indiscutível na equipa, esteve dois meses de fora: "Ainda que também não seja uma desculpa decisiva, a ausência de Hulk, um jogador de grande peso, contribuiu para que este FC Porto tivesse sido muito diferente, para pior, em relação à última época".
SPORTING: UM FRACASSO COM VÁRIAS CAUSAS E UM ALERTA
O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. É uma máxima popular, conhecida, referida vezes sem conta. Pode, por exemplo, sintetizar a época do Sporting: os problemas sentidos durante a pré-temporada foram um prenúncio para o que aconteceria ao longo de todo o campeonato, culminando num quarto lugar a anos-luz, traduzido em vinte e oito pontos, do primeiro lugar. Para explicar o insucesso leonino, Pedro Azevedo encontra vários motivos. Começando, justamente, pela preparação da temporada: "A equipa não se reforçou bem. Paulo Bento construiu um plantel, na minha opinião, muito curto: confiou em demasia nas pedras que tinha e não exigiu, provavelmente por falta de recursos financeiros, um plantel mais vasto, com mais alternativas para todas as posições. Seguiu-se a mudança técnica, logo houve instabilidade", adianta. Essa insegurança não se sentiu, porém, só no plantel. Alargou-se à estrutura directiva.
Agora estabilizado com Costinha, o actual homem-forte do futebol do Sporting, os leões tiveram, durante a época, outros dois directores na chefia dos destinos da equipa profissional. "Houve mudanças de chefe de departamento do futebol e problemas internos que até passaram por alguma animosidade dentro do próprio balneário. Tudo isto, mais a irregularidade que o Sporting uma vez mais teve nesta temporada, dá uma época muito negativa, com uma larga distância em relação às equipas da frente. Eu diria inadmissível, levando em conta o orçamento e a dimensão do clube", atira de pronto para classificar a caminhada sportinguista. E concluir com um alerta: "O Sporting esteve mal, acabou mal e já começou mal a próxima época, porque Paulo Sérgio [o novo treinador] sabe que não foi a primeira opção, essa era André Villas Boas. Saber que foi segunda escolha é uma sensação muito má".
O PERFUME DE DI MARÍA
Posto isto, pede-se, como pergunta da praxe, o nome do melhor jogador do campeonato. "É injusto falar apenas de um", diz, hesitante, Pedro Azevedo. Mas há um, sim: "Ao ter que eleger um jogador, elegeria Di María. Pelo virtuosismo, pela capacidade de desequilibrar, pelas paixões que desperta nas bancadas e pelo espectáculo. É um jogador raro, tem velocidade, técnica, excelente drible, excelente visão, remate fácil e é muito bom nas assistências. Dá gosto ver jogar. Não é por acaso que Maradona, de forma indiscutível, o coloca nos vinte e três e, presumo, nos onze: é um jogador que vai ser titular, pela Argentina, no Campeonato do Mundo. Ser titular na selecção argentina jogando no campeonato português prova, de facto, ser um fora de série. Di María é a grande figura do campeonato", avalia Pedro Azevedo, elogioso para Angelito.
OS MELHORES: TOTAL DOMÍNIO VERMELHO
Depois da figura maior, o melhor em cada posição. "O guarda-redes do campeonato é Eduardo. É bom recordar que, além de o Sp.Braga ser, com o Benfica, a defesa menos batida, na fase de qualificação para o Mundial, Eduardo sofreu apenas dois golos. Não sei como é que é possível ter passado seis anos na equipa B do Sp.Braga sem que tenha sido chamado para guarda-redes titular", interroga-se Pedro Azevedo, ressalvando o valor daquele que foi um dos principais suportes da sensacional caminhada do Sp.Braga e será o número um da selecção portuguesa na África do Sul. Progredindo no terreno, deixando a baliza, há a defesa. E David Luiz: "Só uma vez é que a FIFA teve a infeliz ideia de eleger um defesa como melhor jogador do Mundo, acho que foi uma ideia muito má, mas David Luiz é um dos melhores jogadores deste campeonato, muito melhor do que Luisão. Dunga [seleccionador brasileiro] francamente a dormir", atira.
Do defesa saltamos para o goleador. Óscar Cardozo e Radamel Falcao travaram, ao longo de todo o campeonato, um duelo à parte, intenso e vibrante na corrida pelo prémio de melhor marcador. Tacuara levou a melhor em cima da meta, confirmando o prémio na partida do título. Pedro Azevedo também lhe dá preferência: "Ainda que toda a gente elogie Falcao - foi uma revelação: sem adaptação, sem férias, um ano e meio seguido a jogar -, mas, para mim, Cardozo está acima. É, de facto, um jogador que eu gosto muito, porque tem grande porte atlético, tem um pé esquerdo fabuloso, tem um remate fulminante. É o goleador do campeonato, foi o número um nos golos. Falcao é um jogador diferente, é menos posicional", argumenta, mostrando também admiração por aquilo que El Tigre conseguiu na sua primeira época em Portugal.
Se Cardozo é o artilheiro, o ponta-de-lança que vive de golos, Di María, o eleito de Pedro Azevedo para destaque do campeonato, é o avançado. Não o que marca golos, o que inferniza as defesas: "Di María como avançado, pela versatilidade, brilhantismo, fintas, exuberência, qualidade e slalons inesquecíveis". O jovem argentino foi um jogador que encheu as medidas aos adeptos portugueses. Na eleição para melhor médio, o voto de Pedro Azevedo vai para Aimar. El Mago não teve uma presença assídua, foi gerido por Jorge Jesus devido à sua condição física, mas revelou-se fundamental em momentos decisivos. "É um jogador que particularmente gosto muito e trata a bola de uma forma que, muitas vezes, merece o preço do bilhete", conclui o jornalista da Rádio Renascença. Para Pedro Azevedo, estes foram os melhores da Liga.
A TAÇA SERVE PARA CONSOLAR O ESPÍRITO, DRAGÃO?
O FC Porto conquistou a Taça de Portugal. Poder-se-á dizer, sem ser descabido ou pouco respeitar para o adversário, que cumpriu a sua missão. Os dragões seriam sempre favoritos, contavam com altas probabilidades de arrecadarem o seu segundo troféu da temporada, juntando a Taça à Supertaça ganha em Agosto, procurarem atenuar a má campanha realizada no campeonato nacional. O FC Porto falhou a conquista do título título de campeão consecutivo e, por isso, falhou. Ganhar a Taça de Portugal seria a única escapatória. Jogando com o Desportivo de Chaves, uma equipa caída em desgraça, procurando um sonho para por momentos esquecer a descida de divisão, os dragões foram mais fortes, venceram. Pela margem mínima, contudo, passando ao lado de uma goleada. Demérito próprio e mérito de um Chaves que nunca se rendeu.
Páre, escute e olhe. Foi o que Helton fez. O guarda-redes brasileiro, uma surpresa superiorizando-se a Beto, saiu da baliza, hesitou, ficou a meio caminho, deixou-se antecipar. Edu, o jovem transmontano que foi herói na Figueira da Foz, repentinamente atirado para a ribalta, chegou primeiro do que o guardião, desviou a bola e levou-a no caminho da baliza. Esteve perto, perto, perto de ser feliz. Seria a coroação da história de fadas do Desportivo de Chaves, o melhor esquecimento para a depressão de ter caído de novo na II Divisão, a glória depois de deixar o futebol profissional e no meio de um mar de dificuldades que faz os flavienses verem o fim cada vez mais próximo. Foi a primeira grande oportunidade de golo da final da Taça. Serviu para demonstrar que o Chaves estava no Jamor para ser actor principal, não viver na sombra do FC Porto, fazer de tudo para contrariar as teorias e sair triunfante. Usando as suas armas.
Uma chance assim, próspera para fazer História ao estar presente na final da mítica Taça de Portugal, não pode ser facilmente deitada para trás das costas. O Desportivo de Chaves não tinha o que perder, restava acreditar, sonhar, expandir o seu futebol. O FC Porto é, em todos os sentidos, mais forte e mais capaz, ninguém o coloca em questão, mas o futebol é uma caixinha de surpresas, é um mundo diferente onde tudo pode acontecer. Jogando com respeito, sem abusar da altivez de quem realmente é superior, o FC Porto percebeu-o. O lance de Edu, aos oito minutos, era a prova que faltava para deixar bem claro que não haveria festa antecipada dos portistas. Para o conseguir, o FC Porto teria, primeiro, de trabalhar para isso. Respondeu a Edu com Falcao. No fundo, tratava-se de colocar o Chaves atrás, sem dar azo a investidas flavienses, mostrando superioridade. O FC Porto acelerou, fez tremer o rival, marcou.
UMA VANTAGEM NATURAL
A diferença entre equipas tão distantes esteve, afinal, no aproveitamento. E, até, na felicidade como chegaram às balizas adversárias. O sonho do Chaves, transportado por Edu, esbarrou no poste. O FC Porto ouviu o alarme, pressionou, obrigou os flavienses a errar e colocou-se em vantagem: Guarín rematou, a bola saiu enrolada, pouco tensa, mas passou por debaixo de Rui Rego e entrou juntinho ao poste. Dois erros, primeiro do lateral Eduardo e depois do guarda-redes, custaram caro aos flavienses. Os dragões sorriram, confirmaram o favoritismo, somaram umas décimas à abissal percentagem de favoritismo que o seu estatuto, o de equipa de topo nacional, lhe conferia. Em vantagem, o FC Porto sente-se bem: pode circular a bola, chamar o adversário, obrigá-lo a correr e apostar forte na velocidade para ser bem-sucedido. Hulk furou a defesa, criou, teve golos nos pés. Falhou a concretização para ter um dia memorável.
O golo de Fredy Guarín abalou o Desportivo de Chaves. Foi uma interrupção abrupta e precoce do sonho, fazendo os jogadores despertarem para a realidade, obrigando-os a ter de buscar força nas profundezas da sua alma. As oportunidades para o FC Porto sucederam-se, escorreram em catadupa, apareceram com extrema facilidade. Com Hulk transformado num diabo, levando a equipa, explodindo nos limites do fora-de-jogo, aproveitando a arriscada estratégia do Desportivo de Chaves ao jogar com uma defesa em linha. Numa dessas fugas, com a bola como um íman nos pés, o Incrível esteve a um palmo de aumentar a vantagem, mas Rui Rego opôs-se bem. Foi uma espécie de redenção do guarda-redes. À segunda, veio um golo. Com toda a naturalidade. Hulk escapou, a enésima vez isolado, foi altruísta e deu a Falcao a alegria de marcar. Um toque e já está.
DE UMA GOLEADA ANUNCIADA A UMA VITÓRIA TANGENCIAL
Vinte minutos jogados. O FC Porto com dois golos de vantagem e uma mão sobre a Taça de Portugal, o Chaves incapaz e impotente para lutar contra o destino e as evidentes assimetrias que o separam do topo. O pensamento generalizado foi o de que nada mais tiraria o triunfo ao FC Porto. Era legítimo. Nem os dragões pareceram interessados em desligar-se tão cedo do jogo. Pelo contrário: procuraram mais golos, mantiveram o domínio absoluto, anunciaram um novo tento. Hulk, sempre ele em destaque, somou oportunidades desperdiçadas. Foi displicente, não aproveitou a licença para matar que conseguira. Pelo meio das perdidas, Raúl Meireles foi abalroado na área por Danilo, Pedro Proença não entendeu falta. O Desportivo de Chaves não se encolheu, tentou reagir e jogar bem sempre que possível para chegar à frente. Conseguiu um golo, por Siaka Bamba, ainda festejou, mas o lance foi bem anulado por mão na bola.
O que poderia, então, mudar ao intervalo? Muito pouco. O início da segunda parte confirmou-o: Hulk cobrou um livre, Miguel Lopes desviou subtilmente, a bola embateu no travessão da baliza de Rui Rego. Mantinha-se a toada de mais, muito mais FC Porto. O jogo, contudo, perdera interesse, qualidade e vivacidade. Entrara num registo monótono, molengão, de passar do tempo sem que nada se alterasse. O FC Porto parecia ter o triunfo assegurado, o Chaves pouco mais daria. O tempo correu, o público tentou animar, cantou e festejou, embelezou a final da Taça de Portugal. Do relvado, porém, pouco havia para destacar. Aquele típico registo de final de época abateu-se sobre o Jamor. Hulk, numa das suas investidas, lá tentou abanar o jogo, alargar a vantagem do FC Porto; deu para Falcao e o lance perdeu-se. Era o tempo de Manuel Tulipa, crente numa gracinha, mudar. Para mostrar que ainda era possível acreditar.
Diop dera tudo o que tinha. Estava extenuado, sem mais forças para ajudar a sua equipa, precisava de ser substituído. E também o Desportivo de Chaves necessitava de sangue novo, alguém capaz de fazer tremer a defensiva do FC Porto. Entrou Clemente, um avançado com bons pormenores. Num daqueles lances atípicos, sem que se perceba muito bem o que passa pelos jogadores, o Chaves chegou ao golo. Foi um prémio querer flaviense. Mas, verdade seja dita, caiu do céu aos trambolhões. Rolando e Bruno Alves desentenderam-se, Helton voltou a não ser assertivo, Clemente foi mais astuto, utilizou a mão para ganhar a bola, passou despercebido e rematou para o fundo da baliza azul. O Chaves, antes entregue, acreditou num brilharete. Aumentaram os nervos, Ricardo Rocha e Bruno Alves foram expulsos. A monotonia foi chutada para canto. O FC Porto, sem necessidade, ansiou pelo final. Faltava pouco. E veio a festa azul!