Pega na bola, leva-a no pé esquerdo, parte para cima do adversário. Faz fintas sucessivas, troca os olhos a quem o segue, explode para a linha de fundo. É possante, veloz, tem grande capacidade para continuar com a bola controlada. Parece intocável, mais forte do que tudo, capaz de derrubar qualquer muralha que lhe apareça à frente, ganha poderes que só estão reservados a predestinados. Dá bom resultado. Mas, infortúnio, também pode chegar à linha de fundo e cruzar mal. O lance perde-se, o ataque não tem frutos, a baliza não ficou em perigo, o guarda-redes respira de alívio. Nesse momento, Hulk volta a ser Givanildo Vieira de Souza. Deixa os atributos que fazem dele um jogador acima da média, cai na realidade: é um homem sujeito ao erro, nem tudo lhe sai bem, por vezes pode não resultar. Por mais que tente, não dá. Entra numa panóplia errante.
A analogia é sempre a mesma. Imaginemos um barco. Em pleno naufrágio. Onze remadores que se vêem cada vez mais numa situação aflitiva, o tempo passa e não conseguem sair do sítio, a tempestade, o grande adversário, leva vantagem. É preciso agir. Como em tudo, há sempre quem se destaque. Há um remador forte, capaz de incentivar os outros, que sozinho tem atributos que escapam aos dez restantes. Tenta a sua sorte, faz de tudo para mudar a situação, não dá o seu lugar, quer mostrar que é capaz. Todos o sabem, ele precisa de o mostrar a si próprio. Mas, vá lá, quem é que sozinho consegue sempre, em todas as circustâncias, fazer a força de onze? Ninguém. Nem o remador nem o jogador de futebol. São tantos, tantos, tantos os que o querem. Seria melhor unir as forças de onze.
Esse é um defeito que se aplica a Hulk. O brasileiro tem um inegável talento genuíno, é capaz de decidir jogos, mas falta-lhe cabecinha. Precisa de perceber que não pode querer resolver sempre, o apelido não permite a Givanildo segurar a equipa nos ombros, torna-se mais fácil de travar quando pretende enfrentar os onze adversários sem apoio. É um jogador com uma qualidade imensa, sim, mas precisa dos colegas. Tal como o remador. Se assim não for, não conseguirá passar à primeira. Nem à segunda, nem à terceira. Irá tentar, tentar, tentar, enfim, provar que consegue. Começa a ficar com um nervosinho interior, vai aumentando à medida que o rival é mais forte, torna-se inconsequente. O público não gosta, reclama, passa a bola!. Ele mantém-se confiante: há-de conseguir por mais que custe.
Ora, leitor, este não é um problema associado a ene jogadores que vão passando pelos melhores relvados? Têm talento, mas não o canalizam para a equipa, antes mostram que consegue fazer tudo bem sozinhos. Resulta nalgumas situações. O público curva-se, agradece a oportunidade. É um regalo para a vista. Noutras não. Perdem-se as oportunidades, os possíveis golos, uma eventual vitória. Tudo causado pela teimosia. Hulk já foi anjo e diabo para os portistas. Destroça os adversários, deixa-os pelo caminho, remata com uma potência descomunal para dentro da baliza. Golo, vitória, glória. Títulos. É anjo o Hulk. Noutras parece que nada o travará, mas não passa pelos defesas, o guarda-redes agiganta-se, perde as ocasiões e reclama. Entra numa ânsia de marcar. É diabo o Givanildo.
Hulk começou a temporada como sendo o principal jogador do FC Porto. Hulk-dependência, disse-se que afectava a equipa portista. A pré-temporada deixara indicações de que este seria o ano da sua explosão definitiva. Começou mal, porém. Em Paços de Ferreira apareceu o Hulk individualista, envolvendo-se em picardias constantes, parado por faltas dos adversários, a melhor forma de o travar quando está inspirado, expulso no primeiro jogo. Não pensou na equipa, na falta que poderia fazer, ficou arredado dois jogos. Apareceu mais calmo, ponderado, percebendo que são estas as leis do jogo. Quis justificar os elogios iniciais. Até ao jogo da Luz, com o Benfica. Foi bem anulado nas quatro linhas, não conseguiu soltar-se da teia e deixar o relvado triunfante. Perdeu-se no túnel.
As consequências dos incidentes no final do jogo com o Benfica já são bem sabidos, leitor. Hulk falhou dezoito jogos em Portugal. Pelo meio, apareceu ante o Arsenal. No Dragão e em Londres. Entrou decidido a provar que a paragem não o afectara, que mantinha as qualidades intactas, que tinha sido uma baixa de vulto para o FC Porto. Não conseguiu. Acusou a falta de ritmo, a vontade de querer fazer tudo. Obviamente. Que se poderia esperar de um jogador sem jogo há dois meses? Entre trapalhadas jurídicas, Hulk terminou o castigo. Jesualdo Ferreira utilizou-o à primeira oportunidade. Sinal claro da sua importância na equipa. Jogou no Restelo ao seu melhor nível: duas assistências e um golo de bandeira, devorador de uma defesa tenrinha. Foi uma libertação de raiva pela pausa.
Poderia o campeonato do FC Porto ter sido diferente se Hulk não tivesse entrado no túnel da Luz com os nervos à flor da pele? É uma pergunta incontornável, tão incontornável como olhar para David Seaman, nos tempos do Arsenal, e não reparar no bigode que o imortalizou. Ou Freddie Mercury. A resposta permanece no segredo dos deuses. Ninguém a pode dar, portanto. O melhor Hulk é uma peça fulcral. Não é, contudo, sempre assertivo. Por isso, nunca se saberá o que poderia ter acontecido se o brasileiro tivesse jogado a maior parte do campeonato. Mas é inegável que Hulk, o melhor, a versão genuína em que Givanildo Vieira de Souza se transforma, fez imensa falta a este FC Porto. E ao futebol português. Afinal, os melhores jogadores estão cá para isso. Se foi por isso que a época azul falhou? Não!...
ANÁLISE
O Benfica ganhou ao Sp.Braga, aumentou a vantagem para seis pontos, há dezoito em disputa até final. O mesmo é dizer, portanto, que os benfiquistas têm tudo para voltarem, cinco anos depois, a chegar ao trono de campeão nacional. Só uma ponta final desastrada, aliada a seis jogos triunfantes e históricos do Sp.Braga, poderá inverter a situação. É imperial, contudo, que o Benfica não interiorize que tem desde já o título assegurado. Aí, sim, poderá dar-se mal. E o que dizer desta equipa bracarense? Está na sua melhor época de sempre, tem muito mérito no que conseguiu até agora, fez jus ao seu estatuto diante do Benfica, provou ter qualidade. No entanto, o FC Porto, ao vencer no Restelo, conseguiu encurtar a distância para cinco pontos. É o que separa os dragões do segundo lugar.
Foi o jogo do título? Talvez, mas só os seis encontros que faltam darão a resposta. Dizer que o campeonato ficará decidido à vigésima quarta jornada será sempre arriscado. No entanto, ao vencer o Sp.Braga, o Benfica deu um passo fundamental. Dispõe de uma boa margem, é a equipa mais completa, possui argumentos que faltam aos minhotos, apostou as fichas todas para ser feliz nesta temporada enquanto o Sp.Braga está a superar-se a si próprio. Irão lutar até final, disso ninguém duvide. O Benfica está mais confortável e tem o caminho do título aberto, sim, mas terá que manter a mesma intensidade para chegar à glória. Jogo lutado, limites da adrenalina, vontade de qualquer um deles sair fortalecido. Um golo de um herói revisitado: Luisão. A fazer lembrar 2005, quando decidiu um jogo... do título, contra o Sporting, na Luz - Clique para ler a crónica do jogo
Hulk é um jogador portentoso. Tem técnica, explosão, potência. Capacidades inatas para um futuro auspicioso. Falta-lhe, contudo, ser mais racional, controlar os nervos, jogar em prol da equipa e não decidir ser ele contra o Mundo. Nesse duelo desigual, geralmente, perde. Como acontece com todos os que pretendem fazê-lo. Quando consegue anular esses defeitos, salientando as virtudes, Hulk torna-se temível, ganha poderes que lhe permitem carregar a equipa, aniquila os adversários. Por estes dias, pelo processo disciplinar que o envolveu, Givanildo de Souza é um homem revoltado. Quer-se recompor, mostrar que está vivo, que fez uma enorme falta. É aí que aparece Hulk. No Restelo, o brasileiro foi fundamental para a vitória do FC Porto: assistiu Rolando no primeiro golo - em posição irregular -, fez um golaço e cruzou para Falcao fechar as contas.
O Sporting é imprevisível. Oscila em demasia, consegue atingir patamares de grande qualidade, deita tudo a perder num ápice, volta a entrar numa curva descendente. É mau para qualquer equipa, grande ainda mais. Os leões estão no seu momento mais vivo, com boas exibições e vitórias, uma retoma com os adeptos mas que nada trará para o museu do clube. O jogo com o Atlético de Madrid, a eliminação da Liga Europa, poderia ser um abalo. Foi mesmo. O Sporting voltou à sua fase má, tristonha, sem consistência. O Marítimo fez um bom jogo, com os olhos postos na baliza de Rui Patrício, ganhou com justiça. Por um golo, num 3-2 ditado pelos minutos finais, mas que poderia ter sido mais amplo. A derrota do Sporting deixa estampada a falta de soluções. Sem João Moutinho, sem Miguel Veloso e sem Izmailov, o Sporting parou a retoma. Pior do que isso: reviveu o passado.
A emancipação de um trio de aflitos. Leixões, Vitória de Setúbal e Olhanense são equipas que terão de lutar até final para alcançarem a permanência. Nesta jornada todas venceram. Os leixonenses alcançaram a primeira vitória desde a chegada de Fernando Castro Santos, bateram a Naval por 1-0, mas nem por isso reduziram diferenças para a primeira posição que lhes garante sossego. Há dois culpados: o Vitória bateu, em casa, o Nacional (2-1, vida complicada para os insulares na luta pela Europa), confirmando uma subida substancial na segunda metade da temporada, somando, aqui e ali, pontos importantes para a concretização do objectivo; o Olhanense, trinta e seis anos depois, voltou a triunfar fora em jogos do principal campeonato português: venceu o Rio Ave, ainda sem confirmar a permanência mas tranquilo, por concludentes 5-1. Juntamente com os sadinos, mantém cinco pontos de avanço para o Leixões.
Dos últimos quatro classificados, só o Belenenses foi derrotado. Mas, convenhamos, defrontava o FC Porto e era, por isso, quem tinha tarefa mais complicada. A derrota deixa o campeão nacional de 1945-46 com a corda na garganta, sem horizontes cor-de-rosa, antes cada vez mais invadidos pela penúria de cair no segundo escalão do futebol português. São nove os pontos de atraso, ou seja, metade dos que há para discutir. Embora tenha ganho, também o Leixões, pelos triunfos dos rivais, se mantém numa posição delicada. No acesso aos lugares europeus, nomeadamente o quinto, última posição para entrar na Liga Europa, o Vitória de Guimarães (com uma vitória, 1-0, sobre a Académica salvaguardou a sua posição, ao passo que os estudantes reentraram, quando se esperava que alcançassem a manutenção rapidamente, no lote de equipas ainda em perigo de descida), acossado pelo União de Leiria - venceu, em casa, o Paços de Ferreira (2-1).
O BENFICA SABE JOGAR E GANHAR!
Uma final é uma final. Diz-se que não são para jogar, mas para ganhar. Podem ser, por vezes, noventa minutos inesperados, isolados de tudo o resto, onde tudo é possível de acontecer. No entanto, é impossível dissociar do que tem sido a temporada de ambas as equipas. O FC Porto vive um dos seus mais complicados períodos da última década, o Benfica está em verdadeiro estado de graça que se prolonga a cada jogo. Os encarnados seriam favoritos, são quem melhor se tem apresentado em termos exibicionais e até emocionais. É fundamental controlar os sentimentos, não deixar que toldem a razão e sejam eles a decidir o que fazer. Este FC Porto, contudo, não o consegue: quer mudar, faltam-lhe forças e discernimento. O Benfica é melhor, indiscutivelmente. E provou-o.
Desde que foi derrotado pelo Sporting, em Alvalade, o FC Porto nunca mais se encontrou. Foi o segundo verdadeiro abalo que sofreu na época, o segundo jogo onde não puxou dos galões de um campeão, depois de ter ficado combalido pela derrota ante o Benfica deitou tudo a perder com os leões. Em momentos que estava bem, até com maior favoritismo para vencer, acabou derrotado de forma concludente. Passou, então, a imperar entre os portistas uma espécie de Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar para o torto, tudo virá por acréscimo, pequenos pormenores serão fatais. Antes do jogo com o Benfica, muito mais do que uma Taça da Liga em disputa, sobretudo para os azuis, ansiosos por mostrar que a euforia do velho inimigo pode ser quebrada, Jesualdo Ferreira ficou sem Varela. E já sabia que não tinha Mariano.
Marcar um golo cedo numa final é meio caminho andado para conseguir um jogo tranquilo e colocar uma mão sobre o troféu. O Benfica está motivado, vive um permanente estado de graça, tem tudo para quebrar o ciclo sem vitórias no campeonato e conseguir recuperar o estatuto de outrora na Europa. No FC Porto há uma vontade de querer fazer melhor, de terminar a época com brio, de ganhar as taças que ainda tem em jogo. O futebol, contudo, necessita de uma mente forte e de grande auto-estima. Neste momento, os dragões, por mais que queiram mudar o seu destino, não têm essa faculdade. O Benfica marcou cedo. Aos nove minutos. Rúben Amorim rematou de longe, rasteiro e seco, a bola foi ter com Nuno Espírito Santo, o guarda-redes deu um frango descomunal. Jesualdo encolheu os ombros: que fazer perante este destino?
BOA REACÇÃO... MAS ATACADA POR UM GOLO
Apesar das adversidades, o FC Porto reagiu bem. Já havia pertencido aos dragões a primeira oportunidade, num lance em que Quim negou as intenções de Cristian Rodríguez, mas o golo poderia ter terminado precocemente com a ambição portista em contrariar o Benfica. Os portistas, porém, tiveram capacidade para reequlibrar o jogo, conseguir jogar no meio-campo encarnado e fazerem circular a bola nas proximidades da baliza contrária. Aos vinte e três minutos, com carambolas entre Falcao e Fábio Coentrão, Quim foi obrigado a uma defesa felina. No entanto, pouco mais se viu dos dragões. Escasseavam ocasiões de golo iminente. Foi, sobretudo, a partir da meia-hora que o Benfica quis demonstrar que o seu tento não caíra do céu aos trambolhões. E chegou ao segundo golo num momento-chave: antes do descanso.
Mesmo sendo um guarda-redes experiente, o erro crasso no primeiro golo do Benfica deixou marcas profundas em Nuno. Tremeu, mostrou-se nervoso, não teve recursos para impedir que essa sua inquietação passasse para os seus colegas. Os jogadores encarnados perceberam-no. Nos últimos instantes da primeira parte, o Benfica dispôs de uma falta a cerca de trinta e cinco metros da baliza. Carlos Martins tem um pontapé potente, gosta de tentar a sua sorte, aumentou a confiança em ser feliz. E foi. Rematou forte, uma folha-seca, para o lado de Nuno, a bola entrou juntinho ao poste esquerdo da baliza portista. O golo da tranquilidade assegurado pelo Benfica, mais uma facada nas aspirações do FC Porto em tentar vencer. Aumentou a tensão entre os dragões, acentuou-se a luta desigual contra o rumo natural dos acontecimentos.
UM RUMO NATURAL QUE NÃO SE IMPEDE
E a lógica deste jogo ditava que o Benfica iria ganhar. Simplesmente porque é mais forte. Tem alternativas válidas, Jorge Jesus dá-se ao luxo de deixar Javi García, Ramires, Saviola e Cardozo de fora sem que a equipa sinta qualquer quebra. Os processos estão bem interiorizados, saem com enorme facilidade, o Benfica respira confiança. Ao invés, o FC Porto é uma equipa triste, lutadora mas impotente, sem soluções que dêem sangue novo à equipa e obriguem o adversário a repensar a estratégia. A perder por dois golos ao intervalo, Jesualdo Ferreira lançou Fucile, para procurar estancar as investidas ofensivas de Fábio Coentrão que haviam atormentado Miguel Lopes, e Valeri, em substituição de Rúben Micael, na procura de maior criatividade ao meio-campo azul. Foi inconsequente. O FC Porto não mais criou perigo para Quim.
Uma equipa desesperadamente à procura de sair para o ataque, jogando com o coração, pouco discernida e envolvendo-se em picardias constantes. Foi assim que o FC Porto se apresentou no Algarve. Não foi a primeira vez na temporada, é certo. O Benfica jogou com o tempo e com a ansiedade do adversário, não deu azo a que os dragões tentassem crescer na busca de um golo capaz de relançar o resultado. Há muito mérito nisso. Ciente de que tinha o jogo controlado, Jorge Jesus foi lançando as peças fundamentais que poupara: começou com Saviola, passou por Ramires e terminou com Cardozo. O Benfica terminou o jogo próximo da sua equipa-base, portanto. E fechou com chave de ouro, numa das poucas oportunidades da segunda parte: passa e repassa, Rúben Amorim picou a bola sobre Nuno, o poste encaminhou-a para o pé de Cardozo. Três-zero, resultado abrilhantado.
TEXTO ORIGINAL NO BLOGUE FUTEBOLÊS
O ARSENAL: TIROS DE CANHÃO EM JESUALDO?
COMENTÁRIO
Não restam dúvidas: foi o FC Porto temerário, atemorizado, com poucas forças para lutar, até contra a fortuna. Foi goleado, demolido, por cinco-zero. Caiu sem glória. Como um inexperiente trapezista que se atreve a subir para uma corda bamba, sem o chão à vista, o FC Porto tremeu sempre que o Arsenal se aproximou da sua baliza. Não foi capaz de retirar espaço aos gunners, deixou que utilizassem a sua melhor arma: aquele passa e repassa fácil, simples e extremamente eficaz. Com a bola nos pés, poucas equipas jogam tão bem quanto este Arsenal. Os portistas sabiam, por isso, que não poderiam falhar. Mas entraram demasiado receosos, incomodados pela ansiedade. Pagaram-no caro. Saem pela porta dos fundos da Liga dos Campeões. E dizer que Helton foi o melhor jogador azul?
Há dias em que o melhor é nem sair de casa. A exibição de Fucile em Londres é um exemplo horrível, incrível como um jogador pode ficar de tal forma ligado a uma derrota. O lateral uruguaio, admirado pela sua garra, símbolo da abnegação que os adeptos querem ver espelhada na equipa, ficou ligado a quatro dos cinco golos do Arsenal: involuntariamente colocou a bola nos pés de Bendtner e Eboué, nos primeiro e no terceiro golos, para além de uma falha colossal, verdadeiramente inaceitável, quando entregou a bola a Arshavin, que faria o passe para o segundo golo de Niklas Bendtner, e cometeu uma grande penalidade que culminou no último tento dos gunners. O último golpe num dragão há muito desaparecido, há muito com a bandeira enrolada, há muito com os braços em baixo.
Não se pretende com isto dizer que a culpa da derrota ante o Arsenal recai somente em Fucile. Fica ligado aos golos, contudo não é o único que deve ser crucificado. Esta equipa do FC Porto, convenhamos, não tem características para assumir o seu futebol. Os gunners não tinham Fabrègas, o cérebro de Arsène Wenger, mas ninguém se lembrou do espanhol. Nasri e Arshavin, dois jovens, talentos puros, diverte-se a jogar e levam toda a equipa atrás de si. Abriram brechas na defesa azul, apoiaram-se em Bendtner, um avançado letal, fadado para marcar a portugueses. O jogo sintetiza a época do FC Porto: passiva, sem agressividade, na expectativa, impotente para impedir o andamento do adversário. A equipa entrou numa verdadeira panóplia de erros, ruiu, deixou que o Arsenal jogasse a bel-prazer.
Se na primeira parte nunca os portistas incomodaram Almunia, não tendo capacidade para construir lances de futebol atacante, há que dizer que, após o descanso, surgiram com outra alma. Com dois golos de desvantagem, longe de ser impossível de recuperar, um tento bastaria para empatar a eliminatória, Jesualdo Ferreira prescindiu de Nuno André Coelho, a surpresa, central utilizado a trinco, sem qualquer rotinas nessa posição, para lançar Cristian Rodríguez. A equipa portista melhorou, equilibrou o jogo, aproximou-se do golo. Teve oportunidades. Estava na melhor fase do jogo, mas voltou a errar. Fatal. Nasri entrou na área, bola no pé, como um íman, fintas sucessivas, encarou com três jogadores portistas, driblou e rematou para o terceiro golo. Finito. Tudo resolvido. Passividade total. Demasiado fácil.
Onze dragões de cabeça baixa, sem um líder dentro de campo, verdadeiramente à deriva e servindo de cobaia para um Arsenal empenhado em engordar o resultado. A história do jogo estava escrita, restava aos portistas terminarem com dignidade. Haveria de ser igualado o resultado de Setembro de 2008, quatro golos sem resposta, remate de Eboué, "assistido" por Fucile, após um canto favorável ao FC Porto. Simbólico do desnorte completo dos portistas, esperando pelo final do jogo, esperando não serem ainda mais dizimados pelos canhões britânicos. Em cima dos noventa, Fucile, entrado num pesadelo sem fim, cometeu grande penalidade e deu a Bendtner a oportunidade de firmar o seu hat-trick. O dragão encolheu-se, caiu com estrondo. O Arsenal é bom, sim, mas nada justifica tamanha humilhação europeia.
Diria a razão que o campeonato já estava perdido, que era necessário apostar noutras frentes. O coração, contudo, mantinha a esperança. Uma réstia, um fio, mas ainda lá continuava. Não há equipa invencíveis, todos podem escorregar, por vezes onde menos se espera, o Benfica e o Sp.Braga poderiam perder pontos e o FC Porto chegar ao primeiro lugar. Ao seu sítio nos últimos quatro anos, incontestavelmente. A fé ainda se mantinha. Jesualdo Ferreira foi racional: com o aproximar do jogo com o Arsenal, da segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, fez descansar Raúl Meireles, Rolando e Fucile, titularíssimos nos portistas e utilizados, a meio da semana, em jogos das suas selecções - Varela também não esteve no onze inicial. Amplamente favorito, ante o Olhanense, o FC Porto quebrou. De novo.
Um dos principais problemas deste FC Porto está no facto de dar espaço de manobra ao adversário. Não entra com agressividade, empurrando o adversário a partir do apito inicial, procurando o golo rápido, algo que era seu apanágio. Jogando no Dragão, sobretudo, é impensável que os dragões dêem avanço ao opositor. Fizeram-no com o Olhanense. Tal como já haviam feito com Belenenses e Paços de Ferreira. Adormecidos, envoltos no ritmo contrário, com um futebol em banho-maria, pouco discernimento e capacidade de simplificar. Em casa dos grandes, qualquer adversário de menor envergadura joga fechado, de forma pragmática, um empate sabe a vitória. Este FC Porto, no entanto, ao invés de ser incisivo, revela-se apático. Só desperta quando se vê em apuros. Fá-lo demasiado tarde, obviamente.
Estar a perder por dois golos, em casa, aos dezasseis minutos é algo impensável para uma equipa que ainda pretende manter-se na luta pelo título. O Olhanense joga um futebol vistoso para uma equipa que luta para não descer, não se fecha em esquemas tácticos ultra-defensivos, por vezes paga por isso, é certo, mas favorece o futebol. No Dragão, fez exactamente o mesmo: encarou o FC Porto com coragem, pressionou uma defesa intermitente, com Maicon sob brasas, fez dois golos de rajada, um bis de Djalmir, deixou os dragões ainda mais perdidos na sua ansiedade. Convenhamos: com hipóteses reduzidas de chegar ao pentacampeonato, vendo a Liga dos Campeões da próxima temporada longe, a perder por dois-zero com o Olhanense, que resposta poderia dar o FC Porto?
Há que dizê-lo: os dragões tiveram garra e fizeram de tudo para chegar ao golo. Essa era, contudo, a postura que deveriam ter adoptado desde que entraram no relvado, não correndo atrás do prejuízo. O FC Porto teve oportunidades, acertou por duas vezes nos ferros da baliza de Ventura, mas jogou mais com o coração do que com a cabeça, teve alma e não lucidez. Conseguiu chegar ao golo, a dez minutos do fim, num desvio de Falcao. Aumentou a fé de como ainda era possível inverter o rumo do jogo. Se é verdade que este dragão demonstra muitas fragilidades técnicas para quem quer ser campeão, tem jogadores completamente perdidos na manobra da equipa, também o é que não vira a cara à luta. Por isso conseguiu, in extremis, empatar. Por Guarín. O dragão pagou caro o avanço dado.
Texto original no blogue FUTEBOLÊS
Nove pontos de atraso para o primeiro lugar, oito para o segundo. Vinte e sete em disputa no total até ao fim do campeonato. O FC Porto, inabituado a ter de fazer contas para ultrapassar os rivais há quatro temporadas consecutivas, dominador da última vintena e meia de anos, está numa posição delicada. Há vinte e um anos que não se encontrava tão atrasado para o topo. Por aí se vê a época atípica que os portistas têm tido. A regularidade e eficácia das últimas épocas, que lhes permitiu saírem por cima nos momentos fundamentais, parece perdida. Essa é uma das razões mais claras da quebra do FC Porto, orfão de um pensador, um jogador de fino recorte que comande a equipa e seja capaz de ser decisivo a qualquer momento. Um criador. Esse papel pertence, agora, a Rúben Micael. Apenas recém-chegado.
Época após época, Jesualdo Ferreira tem sido obrigado a reconsrtruir o plantel. E, imperativamente, fazê-lo ganhar o campeonato, lutar pelas outras provas internas e ter uma boa presença na Liga dos Campeões. Sem excepção, é esse o panorama azul. Em consequência disso, os inícios de temporada costumam ser feitos a meio-gás, ainda sem muita eficiência, mas, à medida que os maquinismos vão sendo interiorizados e os novos jogadores se integram na manobra colectiva, o FC Porto inicia a sua cavalgada rumo ao título. Em momentos de aperto, onde é mais importante o controlo emocional do que o futebol evidenciado, os dragões costumavam ser imperiais. Tinham capacidade para ultrapassar as adversidades e usá-las para unir o seu plantel em torno de um propósito: ganhar.
Não sendo propriamente brilhante, o FC Porto foi tetracampeão com todo o mérito. É melhor, reconhecidamente. Esta temporada, contudo, tem havido demasiada irregularidade. Não que, comparativamente com o ano anterior, tenha uma larga diferença pontual. Pelo contrário, são apenas dois pontos. No entanto, faltam a esta equipa o traquejo e a serenidade que valiam vitórias, deixavam os rivais para trás e, no final, faziam toda a diferença. Desta feita, não tem sido assim: nos dois duelos em casa dos grandes, na Luz e em Alvalade, a equipa perdeu a identidade, foi uma sombra de si própria, acusou a pressão de poder encurtar distâncias para o topo e, até, de ter algum favoritismo para a vitória. Perdeu ambos, sem contestação, sem que tenha colocado em causa o triunfo adversário. Foram os piores momentos do dragão.
Há, no FC Porto, uma irregularidade exibicional que dificilmente se explica. A mesma equipa que tão mal esteve nos clássicos em Lisboa, venceu com categoria o Atlético, no Vicente Calderón, e foi avassaladora perante o Sp.Braga, lutando para ser primeiro classificado de forma isolada, na semana que antecedeu a visita desastrosa ao Sporting. A ideia mais visível que fica é que o FC Porto, mesmo acertando com Falcao, Varela e Álvaro Pereria, não conseguiu encontrar um jogador com características semelhantes - nunca se pediria uma cópia - às de Lucho González. A princípio, seria Belluschi, mas o médio argentino, apesar de se ter evidenciado por vezes, tem a tendência para se esconder do jogo. Não o assume. O maestro dos portistas tem sido, desde que foi chegou na reabertura do mercado, Rúben Micael. E a equipa melhorou.
Acresce, ainda, que Raúl Meireles tem tido uma época cinzenta, pouco assertiva, com várias intermitências. Sem jogadores ao seu melhor nível no meio-campo, o FC Porto perde toda a sua capacidade de construção, não fazendo chegar a bola ao ataque, demonstrando dificuldades para lidar com adversários que joguem fechados sobre a sua defesa ou, como aconteceu nos clássicos, tenha superioridade numérica nessa zona cirúrgica. Os portistas têm feito campeonatos sempre em crescendo, acabando invariavelmente por cima, não estão habituados a ter de recuperar terreno. Essa é mais uma novidade. Fundamental: nos últimos quatro anos, nunca o FC Porto teve uma concorrência tão forte, que o obrigue a jogar nos píncaros, sem ceder qualquer espaço. Esta época, contudo, há Benfica e Sp.Braga.
Voltemos ao início: há vinte e sete pontos em disputa, o FC Porto tem nove de atraso para o Benfica. Ainda há possibilidades, sim, mas é improvável que os portistas consigam chegar ao pentacampeonato, pois terão, obrigatoriamente, de vencer todos os seus jogos e esperar que os encarnados escorreguem, pelo menos, três vezes. Convenhamos: mesmo recebendo Sporting, Sp.Braga e, na penúltima jornada, jogando no Dragão, a equipa benfiquista não tem mostrado sinais de quebra ou de poder a entrar num ciclo de resultados negativos, que, nesta temporada, têm escasseado. Para além do Benfica, há ainda a distância de oito pontos para o Sp.Braga. E para a pré-eliminatória da Liga dos Campoeões - presença contínua desde 2003. Aos portistas resta acreditar. Jogo a jogo, com um olho no campo adversário.
O REGRESSO DO SENHOR LEÃO
Senhor leão, por favor. O Sporting temerário, errático e desnorteado ficou para trás. O momento, agora, é outro. A partida com o Everton já o anunciara, o clássico com o FC Porto confirmou: os leões jogam como ainda ninguém vira nesta temporada. Pode custar a crer, é verdade que sim, mas a vitória sobre os dragões não deixa dúvidas: consistência, entreajuda, redução de espaços, golos em momentos marcantes. Três tiros num dragão impotente, uma equipa que nunca se conseguiu encontrar, mergulhada num mar de indecisões e de más opções. O título é, agora, uma possibilidade cada vez mais remota. É a razão que o diz. Mantém-se a crença de que ainda há hipótese. Os papéis do jogo não estarão trocados? Não, claro que não. Acreditem!
Um clássico entre dois gigantes fora do seu sítio. Chegados a esta fase da época, com dez jogos pela frente, FC Porto e Sporting costumam ocupar os primeiros lugares do campeonato. Nas últimas épocas tem sido assim, sempre. Desta vez, contudo, é diferente: o FC Porto não chega com a via aberta para ser campeão, o Sporting está afundado numa temporada de pesadelo. Vida ou morte. É assim, sem meios termos ou contemplações, que os dragões, em terceiro, procurando manter as distâncias para Benfica e Sp.Braga, na esperança de continuar na perseguição e obrigar os rivais directos a um tropeção, encaram o clássico. Um deslize ser-lhes-á fatal. E o Sporting? Para que conta, então, este jogo? Sobretudo para a honra da equipa: é necessário recuperar o quarto lugar. Esse é o objectivo actual dos leões.
Está nos livros, em qualquer um deles onde o assunto seja futebol, que marcar cedo é meio caminho andado para se ser bem sucedido. A equipa tranquiliza-se, ganha confiança para enfrentar o jogo, passa a pressão para o lado do adversário. E precisa de estar preparado para a reacção, para que não tenha sido um esforço em vão, só interessa se o golo puder ser rentabilizado. O Sporting fez tudo isso: entrou em força, pressionante, marcou cedo, assumiu o controlo do jogo e preparou-se para qualquer eventualidade. Pode-se dizer, resumindo tudo isso, que deu continuação à exibição perfeita ante o Everton. Já se sabia que ganhara confiança com esse triunfo europeu, o golo de Yannick, aos seis minutos, confirmou que este Sporting sofreu uma alteração profunda. Não se explica, são coisas do futebol.
ELES ESTÃO EM QUINTO?
Alguém que tivesse caído agora no futebol português e estivesse atento ao jogo de Alvalade, diria que morava ali uma equipa de grande potencial. Aquele Sporting não poderia, em momento algum, ser um quinto classificado: os leões instalaram-se no relvado, superiorizaram-se no meio-campo, impediram que os portistas, com Rúben Micael e Raúl Meireles, tivessem bola no pé. Tiveram, logo a seguir ao golo, uma nova oportunidade para marcar: Liedson entrou na área, rematou forte, Helton negou-lhe a vontade. O FC Porto ainda não se encontrara, estava perdido no domínio do Sporting. Ninguém se lembrou do leãozinho frágil e desorientado que esteve sete jogos sem vencer. O jogo com o Everton foi a pedra de toque, agora estava ali um leão forte, confiante e bem centrado no objectivo de ganhar.
À medida que Varela foi ganhando espaço, os portistas conseguiram equilibrar o jogo. Passaram a ter mais bola, rondaram a área de Rui Patrício e criaram algum perigo para a defesa leonina. Não foi, porém, uma resposta incisiva, incessante pelo golo, uma vez que nunca os dragões conseguiram criar uma oportunidade de golo iminente. O intervalo aproximava-se, Jesualdo Ferreira teria de mudar algo, a equipa necessitava de se tornar mais agressiva e ganhar ofensividade. O Sporting não deixou, agiu antes que o FC Porto apostasse qualquer coisa, fez um segundo golo, por Izmailov, antes do descanso. Os leões juntaram à consistência e união do seu futebol, uma matreirice das grandes equipas, um atributo desaparecido, foram mortais nos momentos-chave. Tão diferentes que eles estão.
PERFEIÇÃO QUE MATOU O DRAGÃO
Sem perceber muito bem como, o FC Porto deixou a primeira parte com dois golos de atraso. Um sofrido no início, outro no final. Por entre um apagão generalizado, numa equipa incapaz de dominar a força revoltosa do leão, descaracterizada e impotente, faltou também felicidade na forma como foram consentidos os golos. Mas não se ficou por aqui. O intervalo foi uma pausa, serviu para o Sporting recuperar o fôlego, para voltar com toda a energia. Era a hora de desferir o golpe final no adversário. Foram precisos dois minutos, somente: Izmailov rematou ao poste, a defesa azul foi passiva, Miguel Veloso encheu-se de fé e acertou bem no coração do dragão. Três-zero, reacção do FC Porto deitada por terra, mérito total do Sporting. Não tinha sido isso que acontecera, com os papéis invertidos, no jogo do Dragão?
Recapitulemos, então, para que não fiquem dúvidas: o Sporting marcou um golo no início do jogo, outro antes do intervalo, fez o terceiro nos momentos iniciais da segunda parte. Pode-se dizer que atirou as responsabilidades para o lado do FC Porto, impediu uma reacção forte para alcançar o empate rapidamente nos segundos quarenta e cinco minutos e, por fim, acabou com o jogo numa altura em que Jesualdo Ferreira já trocara Raúl Meireles por Belluschi com o intuito de aumentar a capacidade de criar futebol ofensivo na sua equipa. A exibição leonina foi perfeita, abrilhantada por um portentoso jogo de Yannick, um prolongamento à altura do exibido na quinta-feira, uma mostra de que o futebol não tem lógica que resista. O campeão tombou, sem forças, entre erros em catadupa, tudo lhe saiu mal. Terá sido o fim?