Um empate e uma derrota depois, o FC Porto regressou às vitórias para o campeonato português. Fê-lo frente ao Rio Ave, no Dragão. Não se pense, porém, que foi um triunfo fácil. Pelo contrário, pois o Rio Ave é uma equipa que se sabe fechar e defender sem necessitar de colocar uma muralha junto à área. A vitória do FC Porto baseou-se, sobretudo, no esforço, na persistência e na crença que os jogadores mantiveram. Foi justa. E sofrida: o golo vitorioso demorou a chegar, por algum desacerto dos atacantes portistas mas, sobretudo, por uma magnífica prestação do guarda-redes Carlos. A prova maior à personalidade dos dragões surgiu após um penalty desperdiçado por Falcao, nos minutos inciais da segunda etapa. Foi ultrapassado, atitudo bem diferente das últimas mostras. O FC Porto está longe ainda da equipa que conhecemos mas melhorou.
Oitenta e dois minutos: canto de Raul Meireles, toque de Farías para a entrada da pequena área e desvio precioso de Varela para o fundo da baliza do Rio Ave. Suspiraram de alívio os adeptos portistas, o FC Porto desfez o empate e ficou com tudo para somar os três pontos. Foi uma recompensa pela insistência, para a equipa de Carlos Brito um castigo. Imperou a lei do mais forte. Antes disso, o jogo tinha sido entretido, bem dividido, sempre com maior poderio do FC Porto mas sem um Rio Ave encolhido ou demasiadamente encostado à baliza de super-Carlos - um guarda-redes que o jogo transformou em herói. Nem Carlos Brito joga assim. As suas equipas não se intimidam com o adversário, têm ambição (realista) e tentam explorar todo o relvado.
Faltavam, então, oito minutos para os noventa quando o empate foi desfeito. Não o nulo, porque antes disso, dentro da primeira vintena de minutos, já ambas as equipas tinham marcado. Aos vinte e três, Hulk furou a defesa do Rio Ave, tabelou com Falcao e atirou a contar. Pensou-se que o FC Porto teria aí facilitado a sua tarefa de vencer, que esse golo lhe poderia dar a tranquilidade que a equipa tanto tem procurado. Não. Jogaram-se somente mais dois minutos até João Tomás, elevando-se entre os defesas azuis-e-brancos, fazer voltar tudo ao início. O golo sofrido foi um bom mote para a reacção do FC Porto: pressionante, trocando a bola junto da baliza contrária, procurando marcar o quanto antes. Veio o penalty, Falcao falhou. Foi preciso esperar até Varela, salvador, fazer o golo tão desejado.
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ONDE ANDA A ARTE DE MARCAR?
Um jogo equilibrado e dividido tinha que dar num empate. Mesmo sendo um derby. O Sporting-Benfica teve intensidade, boas oportunidades para ambas as equipas chegarem ao golo, mas terminou a zeros. O Sporting esteve muitíssimo acima daquilo que havia feito até aqui, o Benfica não teve a criatividade necessária para marcar nem foi pressionante e incisivo como se esperaria. Em teoria, o empate seria sempre mais favorável aos encarnados, pois jogaram fora de casa. Na prática, também foi assim: não só por terem pertencido aos leões as melhores chances para quebrar o nulo mas também porque os onze pontos de distância se mantêm.
Um Sporting com dificuldades, um Benfica pleno de força. Dois grandes do futebol português que vivem agora em mundos diferentes. Um derby tem uma magia que não se explica, são noventa minutos onde tudo pode acontecer e onde o favoritismo nem sempre dá bons resultados. Lado-a-lado, Sporting e Benfica juntos num objectivo comum: ganhar. Nos leões, uma obrigação para iniciar uma recuperação que ainda lhes permita chegar ao título. Nas águias, para se manterem agarrados ao primeiro lugar e, ainda, deixaram o eterno rival definitivamente para trás. Carlos Carvalhal em busca de um tónico que faça a equipa recuperar a sua condição, Jorge Jesus atrás da afirmação. Tudo isso num ambiente extraordinário. A convidar uma grande noite de futebol.
Hora do jogo, momento de desvendar as incógnitas que ainda restavam sobre os onze escolhidos. No Benfica, o regresso de César Peixoto à esquerda e a confirmação de Saviola com todas as condições para ser utilizado. Mais revolucionário foi Carlos Carvalhal: colocou o Sporting em 4x2x3x1, com Marco Caneira no lado esquerdo da defesa, Adrien Silva no meio-campo junto a Moutinho e ainda um tridente ofensivo com Vukcevic, Matías Fernandéz e Veloso. O novo treinador prometera atitude de leão nos seus jogadores e o início da partida trouxe um Sporting determinado, disposto a assumir o jogo. Liedson foi o primeiro a criar algum perigo, Cardozo respondeu com um remate que passou ao lado. Afinal, este era também um confronto de grandes goleadores.
BALANÇA EQUILIBRADA, OCASIÕES E... DESPERDÍCIO!
Porém, acabaria por pertencer a um defesa a grande ocasião de golo da primeira parte: Anderson Polga recebeu um passe teleguiado de Adrien, dominou a bola, encarou Quim, mas atirou muito por cima da trave da baliza encarnada. Seguir-se-ia, quase na jogada imediata, um remate de Liedson que o guarda-redes benfiquista parou bem. Na resposta, Patrício viu-se obrigado a sair da baliza para anular um lançamento longo para Cardozo. Estavam jogados vinte e cinco minutos, o jogo finalmente teve um abanão. Até aí fora disputado, dividido e intenso, contudo jogado longe das áreas. O equílibrio esteve por detrás do espectáculo, a zona central do relvado foi o palco principal e os guarda-redes quase meros figurantes.
Após esse período em que o jogo se abriu, tudo voltou a ser como antes. Assim se prolongou pelos primeiros minutos da segunda parte. Pelo meio apareceu um remate forte de David Luiz que não teve consequências para a baliza de Rui Patrício. O momento de maior espectáculo que o derby de Alvalade ofereceu chegou, enfim, no minuto cinquenta e sete: Miguel Veloso rematou de longa distância e Quim opôs-se com uma monumental defesa. No canto que daí derivou, Moutinho teve um bom remate que passou perto do posto. Nunca uma equipa estivera tão próxima do golo. O Sporting era mais perigoso, o Benfica precisava que Aimar pegasse no jogo mas o argentino ficou demasiado preso ao lado direito. Jorge Jesus não teve gula, percebeu que um ponto ganho na casa do rival é sempre positivo e preferiu jogar pela certa.
O relógio apressava-se, a toada do jogo mantinha-se e um golo, fosse para quem fosse, parecia cada vez mais longe de surgir. Já dentro dos vinte minutos finais, com Rúben Amorim no lugar de Pablo Aimar, o Benfica voltou a aparecer num lance em que Di María viu Patrício negar-lhe o golo. A partida ganhou outro ânimo mas nenhum dos treinadores decidiu arriscar mais qualquer coisa em busca da vitória. Na parte final, a sete minutos dos noventa, os encarnados voltaram a estar próximos do golo: Ramires, junto à linha de golo, desperdiçou uma ocasião soberana de dar uma machadada final no Sporting. Seria injusto, há que dizê-lo, por aquilo que os leões fizeram. O jogo terminou, então, tal como começara: empatado a zero.
É uma evidência incontornável: este FC Porto está mais fraco do que no passado. A equipa não tem a mesma eficácia nem a coesão que tantas alegrias lhe valeu. O FC Porto de Jesualdo Ferreira não foi nunca uma equipa que impressionasse pelo futebol apresentado mas fazia uma gestão perfeita do jogo e sabia ser decisivo nos momentos cruciais. Esta época, porém, tem sido diferente: os portistas apresentam um futebol demasiado trapalhão, pouco pressionante e já perderam pontos importantes - dois empates, com Paços de Ferreira e Belenenses, juntam-se a duas derrotas, em Braga e nos Barreiros. No campeonato nacional, à décima jornada, são cinco os pontos de atraso para o primeiro lugar.
Poder-se-á argumentar que, na mesma altura da época anterior, o Leixões liderava com três pontos de vantagem. Também que o Benfica era líder na pausa natalícia e chegou a contar com mais cinco pontos, tantos quantos dispõe actualmente. Tudo isso faz sentido, corresponde à realidade. No entanto, é necessário compreender cada especificidade: uma delas, talvez a maior, é que os encarnados, os rivais mais director, estão mais fortes, e também o Sp.Braga tem demonstrado que se poderá intrometer entre os grandes. Qualquer escorregão poderá, então, para os portistas, ter mais importância do que nas épocas anteriores devido ao aumento da qualidade da concorrência.
Em termos internos, uma das explicações para a pouca consistência do futebol do FC Porto é o desgaste do sistema táctico. Jesualdo, desde que chegou ao Dragão, preferiu sempre o 4x3x3. Época após época viu sair jogadores importantes, mudou as peças mas manteve o desenho do xadrez exactamente da mesma forma. A ideia que fica, actualmente, é que este sistema conta pouco dinamismo e os jogadores estão demasiado presos às suas funções, sem se conseguirem soltar para criar lances de perigo para as balizas contrárias. O 4x3x3 está gasto? Sim, de certo modo, pois torna-se até previsível para os adversários. Frente a equipas com superioridade no meio-campo, o FC Porto sente dificuldades de progressão.
Quando uma equipa não consegue fazer valer o seu jogo colectivo, ter boa ligação entre os sectores médio e ofensivos e colocar todos os maquinismos defensivos em funcionamento, costuma socorrer-se das individualidades. Porém, é extremamente perigoso que uma equipa espere por um golpe de génio que lhe dê a vitória. Este FC Porto, a princípio, valeu-se do talento de Falcao e Belluschi, do instinto de Farías. São jogadores que têm aparecido, no entanto, com alguma intermitência. Os novos ainda não estão totalmente sincronizados, El Tecla já mostrou que é uma boa arma-secreta mas não obtém o mesmo rendimento quando joga de início. Teriam obrigação de decidir quando o colectivo não funciona?
Depois, há Hulk. No início da temporada, após as perdas de Lucho e Lisando, os adeptos centraram as suas esperanças no Incrível. O brasileiro é um jogador de qualidade, indiscutivelmente. Mostrou na primeira temporada em Portugal uma capacidade excepcional de aliar a velocidade à boa técnica que possui. Este afigurou-se como o ano da sua afirmação. Contudo, até este momento, Hulk não tem sido um jogador fundamental como se esperaria. As suas jogadas não fazem tremer as defesas contrárias, em 2009-10 ainda não teve um momento de verdadeiro inspiração. A equipa ressente-se disso, da mesma forma que se ressente do facto de Raul Meireles estar bem menos interventivo do que em temporadas anteriores. Ante o Chelsea, o médio português esteve bem acima do que tem feito. Será, talvez, um sinal de mudança.
Crónica de Rogério Azevedo, jornalista do jornal A BOLA, para o FUTEBOLÊS
1. QUE OBJECTIVOS DE PORTUGAL PARA A ÁFRICA DO SUL?
Octávio Machado diria que o objectivo é traçado jogo a jogo. Passar a fase de grupos é o mínimo dos mínimos, chegar aos quartos-de-final será um 'suficiente mais', atingir as meias-finais será qualquer coisa como 16/17 valores. Daí para a frente será só lucro: Portugal nunca esteve numa final de um Mundial, logo mais do que a meia-final é sonhar altíssimo.
2. DEVERIA PORTUGAL TER ATINGIDO A QUALIFICAÇÃO MAIS CEDO?
Talvez. O grupo onde a Selecção estava inserido não era, pelo menos em teoria, de elevado grau de dificuldade, pelo que se esperavam bem menos complicações. Não nos podemos esquecer, porém, que a Suécia (afastada da África do Sul) é a oitava Selecção, de todos os tempos, com mais pontos somados em fases finais de Campeonatos do Mundo, só ultrapassada pelo Brasil, Alemanha, Itália, Argentina, Inglaterra, França e Espanha. A Dinamarca, vencedora do grupo, está cinco lugares atrás de Portugal neste mesmo ranking: Portugal é 19.º com 34 pontos em fases finais, a Dinamarca é 24.ª com 23 pontos. Portugal deveria ter sido primeiro no grupo? Sim. É surpreendente que tenha sido obrigado a ir ao playoff? Talvez. Mas não muito.
3. ESTE É O REAL VALOR DE PORTUGAL?
O valor individual dos jogadores portugueses é superior ao valor individual dos jogadores dinamarqueses ou suecos. O valor colectivo de Portugal é que esteve, até ao 'esmagamento' no Brasil (derrota por 2-6), bem abaixo da soma das partes. Depois, passo a passo, jogo a jogo, Carlos Queiroz conseguiu encontrar os equilíbrios necessários para a Selecção melhorar imenso. A primeira parte da qualificação é para deitar fora, a segunda parte é quase para emoldurar.
4. PARALELO COM OS ÚLTIMOS TEMPOS DE SCOLARI?
Scolari teve a vida muito mais facilitada no primeiro ano em Portugal. Não teve de passar pelas qualificações para o Euro-2004, tinha um naipe de jogadores muito mais forte em termos mentais e teve Portugal quase inteiro a assinar por baixo de tudo o que dizia. Psicólogo social brilhante, treinador de craveira média, o brasileiro 'chupou' tudo o que havia para 'chupar' dos jogadores. Queiroz, ao invés, teve de passar pelas qualificações, ficou sem Figo, Pauleta e Fernando Couto, por exemplo, sendo substituídos por jogadores com menor traquejo mental. Mas isto foi para o Euro-2004. Para o Mundial-06, as coisas foram diferentes. Scolari qualificou-se e chegou ao quarto lugar na Alemanha. A qualificação de Queiroz para o Mundial-2010 não foi diferente da qualificação de Scolari para o Mundial-06. Ou seja, tudo o que fique abaixo dos quartos-de-final ficará a perder, claramente, para Scolari.
O Benfica caiu. Na Luz, a sua fortaleza, frente ao Vitória de Guimarães. Uma espécie de repetição do que acontecera em 2005-06. Paulo Sérgio, treinador que na temporada anterior levou o Paços de Ferreira à final do Jamor, tinha dado o mote: não há nenhuma equipa invencível e, por isso, os vimaranenses podiam ser felizes. Para que a estratégia surtisse efeito perante este Benfica, seria necessária audácia, coragem e enorme concentração. O Vitória foi tudo isso. E eficaz, sobretudo: tanto a defender, com Nilson em destaque maior numa defesa muito consistente, quer no ataque, onde o golo de Gustavo Lazzaretti deu o acesso à fase seguinte da Taça de Portugal. O Benfica pressionou, Jorge Jesus lançou Weldon e Nuno Gomes, mas falhou no momento de finalizar - o ataque encarnado sente claramente a ausência de Cardozo.
Carlos Carvalhal estreou-se, à frente do comando do Sporting, com uma vitória. Contra o Pescadores da Costa da Caparica, equipa que lidera a série F da III Divisão. Resultado que era esperado, sim, mas a tarefa em nada foi facilitada. Bem pelo contrário, pois os Pescadores colocaram-se em vantagem através de um excelente golo de Tozé e chegaram ao intervalo a ganhar. Carvalhal apresentou, na equipa que iniciou o jogo, uma novidade em termos tácticos: deixou para trás o losango e optou por um 4x3x3. Porém, devido ao resultado adverso e à pouca consistência da equipa, remodelou a equipa no sistema preferido de Paulo Bento. Foi assim que, na segunda etapa, os leões conseguiram a reviravolta e partir para uma vitória folgada por 4-1. Os Pescadores conseguiram somente meia-surpresa.
Aliados de Lordelo, Freamunde e Beira-Mar são os tomba-gigantes desta eliminatória da Taça de Portugal. Recebem, justamente, esse estatuto porque eliminaram equipas primodivisionárias. Os primeiros deixaram o Leixões pelo caminho após uma vitória por 1-0 no tempo regulamentar, enquanto os outros sorriram após a marcação de grandes penalidades frente a União de Leiria e Académica, respectivamente. Em situação semelhante, no recurso às penalidades, estiveram Tirsense (ante o Paços de Ferreira) e Fátima (na Choupana, com o Nacional) mas aí levaram a melhor as equipas do principal campeonato português. O Gil Vicente morreu literalmente na praia: jogou na Figueira da Foz, aos noventa minutos tinha uma vantagem de dois golos, a Naval chegou ao empate e, após o prolongamento, deu a volta ao resultado. O Valenciano, que na eliminatória anterior havia eliminado o Olhanense, viu o sonho ser quebrado pelo Belenenses.
PS: Verdadeiramente bizarro o estado em que o Mafra jogou. Ou melhor: foi obrigado a jogar. Mesmo com jogadores de quarentena devido ao vírus da Gripe A, a equipa treinada por Filipe Moreira apresentou-se em campo, diante do União da Madeira, e venceu após o desempate por grandes penalidades. Grande mérito.
CRÓNICA
Portugal está apurado para o Mundial 2010. Não foi um caminho fácil de percorrer, bem longe disso. Os portugueses tiveram inúmeros obstáculos, caíram, passaram por momentos complicados mas a esperança, defendeu que as contas só se poderão fazer no final. Talvez fosse o único a pensar assim. A África do Sul chegou a ser uma miragem. O apuramento foi sofrido mas sempre num plano ascendente que permitiu chegar ao playoff. A Bósnia era o último obstáculo. Missão cumprida, com dificuldade mas também com justiça. O equipamento está sujo das quedas. O sucesso chegou.
Ambiente louco, louco, louco. Um público frenético, com toda a confiança do planeta, convicto para empurrar a sua nação rumo à glória. Um verdadeiro inferno. Portugal já sabia o que o esperava, a recepcção fora um exemplo e importava que os jogadores não acusassem a pressão. Carlos Queiroz manteve o esquema e a equipa que venceu o jogo da primeira mão. Apenas com uma excepção: Deco ressentiu-se de uma lesão e ficou no banco. Sem Ronaldo, logo à partida, Portugal ficou também sem o seu jogador mais criativo. Do outro lado, a aposta era bem declarada: futebol directo para Dzeko e Ibisevic. A Bósnia assumiu, desde o primeiro minuto, a iniciativa do jogo mas bem longe do sufoco prometido. Tinha maior tempo de posse de bola, sim, até porque havia um resultado negativo para inverter, mas nunca sendo intimidatório.
Se a aposta declarada dos bósnios no jogo aéreo não tinha o resultado esperado - por boa acção de Pepe e os dois centrais, Bruno Alves e Ricardo Carvalho - também o futebol português estava demasiado desorganizado e conseguir ligação. Enfim, um jogo com pouca velocidade e quase sem lances de perigo para qualquer uma das balizas. Um futebol bem mais conveniente para Portugal, que mantinha a bola afastada da área. O minuto vinte e cinco poderia ter sido um ponto final nas dúvidas, uma espécie de carimbo no passaporte para África do Sul: Raul Meireles teve uma oportunidade de ouro para marcar mas Hasagic agigantou-se. Nada mudou, após isso. A Bósnia manteve-se com mais iniciativa, jogando essencialmente pela direita do seu ataque, mas sem nunca deixar os portugueses com reais motivos de preocupação. Apenas alguns sustos. A primeira parte foi assim, com pouco interesse.
TODOS JUNTOS RUMO À ÁFRICA DO SUL
CRÓNICA
Teve final feliz mas foi um filme com argumento de Alfred Hitchcock. A exibição da Selecção portuguesa passou por diversas fases: começou atada, conseguiu chegar ao golo, retraiu-se após estar em vantagem, sentiu um aperto, reassumiu o jogo com oportunidades para fazer mais golos, teve uma ponta final de enorme sofrimento e recheada de sorte. A sorte que nada quis com os portugueses na fase de apuramento, agora foi uma boa ajuda para a manutenção da vitória. Houve que sofrer, muito, muito. Contudo, como era seu objectivo, Portugal parte em vantagem para a segunda mão.
O primeiro desejo de Carlos Queiroz estava cumprido: os portugueses criaram um ambiente verdadeiramente fantástico num estádio da Luz a transbordar confiança. E de emoções sempre fortes. Este era, claro, um jogo com uma enorme carga emotiva e um dos mais importantes que Portugal teve num passado mais recente. Para uma equipa que renasceu das cinzas na fase de qualificação, conseguindo a enorme custo estar neste playoff, só se pode pedir que marque presença na África do Sul. Com confiança, nunca abusando da altivez. O adversário não é nenhum colosso, nenhum papão mundial, mas tem valor. Alerta máximo, por isso. Nos horizontes bósnios estava somente a baliza de Eduardo. De qualquer zona do relvado que fosse, Dzeko, Ibisevic e Misimovic não deixariam de tentar rematar.
O jogo começou amarrado, enrolado, dividido. Portugal tentou sempre ser mais empreendedor, aproximar-se da baliza de Hasagic, mas a Bósnia tinha o jogo que mais lhe convinha. Era preciso que Portugal fosse mais incisivo e pressionante para desorganizar a estratégia de Miroslav Blazevic e chegar ao golo. Apareceram alguns fogachos de Nani, pedia-se que Deco assumisse o jogo e espalhasse a sua magia. Uma espécie de sociedade entre ambos, entre os mais criativos. Essa associação funcionou, pela primeira vez, aos trinta minutos. O resultado? Um golo: Deco recuperou a bola, entregou-a para Nani que, com um excelente cruzamento, permitiu que Bruno Alves fizesse o primeiro golo de Portugal. Na cabeçada do portista estava a alegria de dez milhões de portugueses.
TER OS DEUSES AO LADO
Pouco passou para que a Bósnia se mostrasse, dissesse que ainda muito havia para jogar. Ibisevic, solto entre os centrais, teve espaço mas falhou o alvo. Frisson, silêncio de cortar. Ofertas assim não podem ser dadas a jogadores de qualidade, porque raramente são desperdiçadas. Estranhamente, até contrariamente ao que seria de esperar, o golo marcado provocou alguma intranquilidade na equipa portuguesa. A Bósnia esteve, de novo, perto do empate. Eduardo teve uma bela defesa e negou a vontade a Salihovic. Portugal tentou responder mas, nesta fase, era a Selecção de Miroslav Blazevic quem estava por cima. Nova oportunidade: Ibricic acertou na trave, com estrondo. Que perigo! Chegou o intervalo, foi bom para Portugal porque estava, sejamos sinceros, a ter inúmeras dificuldades para sustenter o ímpeto bósnio.
Na segunda etapa, Portugal dispôs da primeira grande oportunidade para dar uma machadada no jogo aos cinquenta e oito minutos. Liedson teve um pormenor extraordinário sobre a defensiva bósnia mas falhou o alvo. Foi a pedra de toque que trouxe a serenidade que faltava ao jogo português, intermitente mesmo em vantagem. Apareceriam, depois, remates perigosos de Deco e Simão Sabrosa mas nenhum deles levou a direcção certa. Agora, com Portugal mais calmo na gestão do jogo, a Bósnia estava mais comedida e sem o mesmo caudal que demonstrara após o golo português. O intervalo marcou essa separação no jogo, mudou a forma como estava a decorrer. Como se esperava, o descanso fez bem a Portugal.
Carlos Queiroz não esteve feliz nas substituições. Após as saídas de Nani (Fábio Coentrão, estreia demasiado nervosa), Simão (Tiago) e Deco (Hugo Almeida), Portugal passou para um 4x4x2 mas perdeu os jogadores que melhor conservavam a posse da bola. Os bósnios raramente chegavam com perigo à baliza de Eduardo mas um golo caído do céu aos trambolhões poderia deitar tudo a perder. A vantagem tangencial nunca é garantia de segurança. Minuto 88, um verdadeiro milagre: Dzeko acerta na trave, a bola sobra para Muslimovic que, de baliza escancarada, envia a bola ao poste direito. Como foi possível? Um verdadeiro Euromilhões para Portugal, uma sorte que tantas vezes faltou. A ponta final foi de sofrimento atroz. Terminou na vitória. Uff... Longo alívio.
Nove batalhas depois, os Guerreiros perderam a primeira luta. Na fortaleza do inimigo de sempre, com quem nunca haverão de fazer um pacto de paz. O Sp.Braga, duas semanas depois de ter visto o Rio Ave parar-lhe a série vitoriosa, perdeu agora a invencibilidade frente ao Vitória de Guimarães. Os vimaranenses montaram uma boa estratégia que deixou o adversário manietado, preso, sem imaginação para partir para a nona vitória. Uma verdadeira bomba de Desmarets, à meia-hora de jogo, coroou a excelente primeira parte da equipa de Paulo Sérgio. O Sp.Braga reagiu, claro, até porque não lhe restava outra alternativa, mas pagou caro pela entrada a meio gás. O alarme soou tarde.
Em tempo de guerra não se limpam armas. Ainda para mais quando se joga um derby, os cuidados terão de ser redobrados porque, neste tipo de jogos, a sorte até costuma sorrir à equipa que está pior. O Sp.Braga não levou a máxima em conta: começou o jogo de forma demasiado relaxada, com pouca criatividade e fluidez de jogo, deixando-se anular pela teia que Paulo Sérgio lançou no relvado. O Vitória foi precisamente o contrário: equipa sedenta de vitórias para recuperar o seu lugar no futebol português, tinha neste jogo a oportunidade de dar a volta ao texto. Fê-lo com justiça, graças a um cruzamento perfeito de Nuno Assis que permitiu um extraordinário pontapé de Desmarets. Um hino ao futebol!
O intervalo foi como uma rajada de vento que tudo mudou. As equipas apareceram diferentes. Sobretudo o Sp.Braga que, apenas aqui, começou a fazer jus ao seu estatuto de líder e de equipa que tantos elogios tem merecido. Imprimindo bem mais velocidade, sendo mais pressionante no meio-campo e com profundidade nas alas, os bracarenses apertaram o cerco à baliza de Nilson. Do outro lado, o Vitória baixou as linhas, fechou-se na defesa do seu castelo, teve capacidade de sofrimento e conseguiu anular as tentativas do Sp.Braga - o flanco direito dos arsenalistas sentiu a falta de João Pereira, castigado. A vitória chegou a ser ameaçada mas, com grande esforço colectivo, foi conseguida. Mérito para eles.
Hoje é o primeiro dia do resto da vida do Sporting. O futebol leonino sofreu ontem um profundo rombo. Ou, se o leitor preferir, uma verdadeira revolução, com as saídas de Paulo Bento, Pedro Barbosa e Miguel Ribeiro Telles: treinador, director-desportivo e vice-presidente para o futebol, respectivamente. O mesmo é dizer que os três homens fortes da estrutura leonina abandonaram o clube. A instabilidade que se vivia no Sporting devido aos maus resultados e às más exibições conseguidas, ganhou agora contornos bem maiores. A crise agudizou-se e o clube encontra-se numa profunda carência de identidade. Para culminar, também José Eduardo Bettencourt poderá sair.
A demissão de Paulo Bento foi apenas a pedra que fez ruir a montanha. O Sporting estava numa posição fragilizada, nada coadunante com a condição do clube. Mesmo cientes de que o problema não se resumia apenas ao treinador, os adeptos sportinguistas pediram mudanças que passariam invariavelmente pelo abandono de Bento. A equipa não reagia, mantinha-se apática, era necessário que tivesse um abanão para ainda poder lutar pelos seus objectivos. Ontem, na ressaca do empate caseiro frente ao modesto Ventspils, o treinador abdicou do seu lugar por entender não estarem reunidas as melhores condições para o prosseguimento do seu trabalho. Funcionaria sempre como uma quebra com o passado recente.
Assim foi, sem dúvida. No entanto, o abandono de Paulo Bento estendeu-se à estrutura do clube e também Pedro Barbosa e Miguel Ribeiro Telles renunciaram aos seus cargos, porque eram outros alvos que se mantinham no centro da contestação dos adeptos. O efeito positivo e reactivo que o abandono de Bento poderia trazer, apenas abriu um vazio no clube e deixou José Eduardo Bettencourt entregue a si próprio no que toca ao futebol profissional. A partir de hoje, nada será igual no universo leonino. O presidente já pondera o seu abandono, somente cinco meses após ter sido eleito para o cargo. A situação é delicada. Independentemente do que poderá acontecer nos relvados, é urgente que o Sporting se estabilize internamente. Só assim poderá ter sucesso.