Categoria: FCPorto

A TAÇA SERVE PARA CONSOLAR O ESPÍRITO, DRAGÃO?

O FC Porto conquistou a Taça de Portugal. Poder-se-á dizer, sem ser descabido ou pouco respeitar para o adversário, que cumpriu a sua missão. Os dragões seriam sempre favoritos, contavam com altas probabilidades de arrecadarem o seu segundo troféu da temporada, juntando a Taça à Supertaça ganha em Agosto, procurarem atenuar a má campanha realizada no campeonato nacional. O FC Porto falhou a conquista do título título de campeão consecutivo e, por isso, falhou. Ganhar a Taça de Portugal seria a única escapatória. Jogando com o Desportivo de Chaves, uma equipa caída em desgraça, procurando um sonho para por momentos esquecer a descida de divisão, os dragões foram mais fortes, venceram. Pela margem mínima, contudo, passando ao lado de uma goleada. Demérito próprio e mérito de um Chaves que nunca se rendeu.

Páre, escute e olhe. Foi o que Helton fez. O guarda-redes brasileiro, uma surpresa superiorizando-se a Beto, saiu da baliza, hesitou, ficou a meio caminho, deixou-se antecipar. Edu, o jovem transmontano que foi herói na Figueira da Foz, repentinamente atirado para a ribalta, chegou primeiro do que o guardião, desviou a bola e levou-a no caminho da baliza. Esteve perto, perto, perto de ser feliz. Seria a coroação da história de fadas do Desportivo de Chaves, o melhor esquecimento para a depressão de ter caído de novo na II Divisão, a glória depois de deixar o futebol profissional e no meio de um mar de dificuldades que faz os flavienses verem o fim cada vez mais próximo. Foi a primeira grande oportunidade de golo da final da Taça. Serviu para demonstrar que o Chaves estava no Jamor para ser actor principal, não viver na sombra do FC Porto, fazer de tudo para contrariar as teorias e sair triunfante. Usando as suas armas.

Uma chance assim, próspera para fazer História ao estar presente na final da mítica Taça de Portugal, não pode ser facilmente deitada para trás das costas. O Desportivo de Chaves não tinha o que perder, restava acreditar, sonhar, expandir o seu futebol. O FC Porto é, em todos os sentidos, mais forte e mais capaz, ninguém o coloca em questão, mas o futebol é uma caixinha de surpresas, é um mundo diferente onde tudo pode acontecer. Jogando com respeito, sem abusar da altivez de quem realmente é superior, o FC Porto percebeu-o. O lance de Edu, aos oito minutos, era a prova que faltava para deixar bem claro que não haveria festa antecipada dos portistas. Para o conseguir, o FC Porto teria, primeiro, de trabalhar para isso. Respondeu a Edu com Falcao. No fundo, tratava-se de colocar o Chaves atrás, sem dar azo a investidas flavienses, mostrando superioridade. O FC Porto acelerou, fez tremer o rival, marcou.

UMA VANTAGEM NATURAL

A diferença entre equipas tão distantes esteve, afinal, no aproveitamento. E, até, na felicidade como chegaram às balizas adversárias. O sonho do Chaves, transportado por Edu, esbarrou no poste. O FC Porto ouviu o alarme, pressionou, obrigou os flavienses a errar e colocou-se em vantagem: Guarín rematou, a bola saiu enrolada, pouco tensa, mas passou por debaixo de Rui Rego e entrou juntinho ao poste. Dois erros, primeiro do lateral Eduardo e depois do guarda-redes, custaram caro aos flavienses. Os dragões sorriram, confirmaram o favoritismo, somaram umas décimas à abissal percentagem de favoritismo que o seu estatuto, o de equipa de topo nacional, lhe conferia. Em vantagem, o FC Porto sente-se bem: pode circular a bola, chamar o adversário, obrigá-lo a correr e apostar forte na velocidade para ser bem-sucedido. Hulk furou a defesa, criou, teve golos nos pés. Falhou a concretização para ter um dia memorável.

O golo de Fredy Guarín abalou o Desportivo de Chaves. Foi uma interrupção abrupta e precoce do sonho, fazendo os jogadores despertarem para a realidade, obrigando-os a ter de buscar força nas profundezas da sua alma. As oportunidades para o FC Porto sucederam-se, escorreram em catadupa, apareceram com extrema facilidade. Com Hulk transformado num diabo, levando a equipa, explodindo nos limites do fora-de-jogo, aproveitando a arriscada estratégia do Desportivo de Chaves ao jogar com uma defesa em linha. Numa dessas fugas, com a bola como um íman nos pés, o Incrível esteve a um palmo de aumentar a vantagem, mas Rui Rego opôs-se bem. Foi uma espécie de redenção do guarda-redes. À segunda, veio um golo. Com toda a naturalidade. Hulk escapou, a enésima vez isolado, foi altruísta e deu a Falcao a alegria de marcar. Um toque e já está.

DE UMA GOLEADA ANUNCIADA A UMA VITÓRIA TANGENCIAL

Vinte minutos jogados. O FC Porto com dois golos de vantagem e uma mão sobre a Taça de Portugal, o Chaves incapaz e impotente para lutar contra o destino e as evidentes assimetrias que o separam do topo. O pensamento generalizado foi o de que nada mais tiraria o triunfo ao FC Porto. Era legítimo. Nem os dragões pareceram interessados em desligar-se tão cedo do jogo. Pelo contrário: procuraram mais golos, mantiveram o domínio absoluto, anunciaram um novo tento. Hulk, sempre ele em destaque, somou oportunidades desperdiçadas. Foi displicente, não aproveitou a licença para matar que conseguira. Pelo meio das perdidas, Raúl Meireles foi abalroado na área por Danilo, Pedro Proença não entendeu falta. O Desportivo de Chaves não se encolheu, tentou reagir e jogar bem sempre que possível para chegar à frente. Conseguiu um golo, por Siaka Bamba, ainda festejou, mas o lance foi bem anulado por mão na bola.

O que poderia, então, mudar ao intervalo? Muito pouco. O início da segunda parte confirmou-o: Hulk cobrou um livre, Miguel Lopes desviou subtilmente, a bola embateu no travessão da baliza de Rui Rego. Mantinha-se a toada de mais, muito mais FC Porto. O jogo, contudo, perdera interesse, qualidade e vivacidade. Entrara num registo monótono, molengão, de passar do tempo sem que nada se alterasse. O FC Porto parecia ter o triunfo assegurado, o Chaves pouco mais daria. O tempo correu, o público tentou animar, cantou e festejou, embelezou a final da Taça de Portugal. Do relvado, porém, pouco havia para destacar. Aquele típico registo de final de época abateu-se sobre o Jamor. Hulk, numa das suas investidas, lá tentou abanar o jogo, alargar a vantagem do FC Porto; deu para Falcao e o lance perdeu-se. Era o tempo de Manuel Tulipa, crente numa gracinha, mudar. Para mostrar que ainda era possível acreditar.

Diop dera tudo o que tinha. Estava extenuado, sem mais forças para ajudar a sua equipa, precisava de ser substituído. E também o Desportivo de Chaves necessitava de sangue novo, alguém capaz de fazer tremer a defensiva do FC Porto. Entrou Clemente, um avançado com bons pormenores. Num daqueles lances atípicos, sem que se perceba muito bem o que passa pelos jogadores, o Chaves chegou ao golo. Foi um prémio querer flaviense. Mas, verdade seja dita, caiu do céu aos trambolhões. Rolando e Bruno Alves desentenderam-se, Helton voltou a não ser assertivo, Clemente foi mais astuto, utilizou a mão para ganhar a bola, passou despercebido e rematou para o fundo da baliza azul. O Chaves, antes entregue, acreditou num brilharete. Aumentaram os nervos,
Ricardo Rocha e Bruno Alves foram expulsos. A monotonia foi chutada para canto. O FC Porto, sem necessidade, ansiou pelo final. Faltava pouco. E veio a festa azul!

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Um empate e uma derrota depois, o FC Porto regressou às vitórias para o campeonato português. Fê-lo frente ao Rio Ave, no Dragão. Não se pense, porém, que foi um triunfo fácil. Pelo contrário, pois o Rio Ave é uma equipa que se sabe fechar e defender sem necessitar de colocar uma muralha junto à área. A vitória do FC Porto baseou-se, sobretudo, no esforço, na persistência e na crença que os jogadores mantiveram. Foi justa. E sofrida: o golo vitorioso demorou a chegar, por algum desacerto dos atacantes portistas mas, sobretudo, por uma magnífica prestação do guarda-redes Carlos. A prova maior à personalidade dos dragões surgiu após um penalty desperdiçado por Falcao, nos minutos inciais da segunda etapa. Foi ultrapassado, atitudo bem diferente das últimas mostras. O FC Porto está longe ainda da equipa que conhecemos mas melhorou.

Oitenta e dois minutos: canto de Raul Meireles, toque de Farías para a entrada da pequena área e desvio precioso de Varela para o fundo da baliza do Rio Ave. Suspiraram de alívio os adeptos portistas, o FC Porto desfez o empate e ficou com tudo para somar os três pontos. Foi uma recompensa pela insistência, para a equipa de Carlos Brito um castigo. Imperou a lei do mais forte. Antes disso, o jogo tinha sido entretido, bem dividido, sempre com maior poderio do FC Porto mas sem um Rio Ave encolhido ou demasiadamente encostado à baliza de super-Carlos - um guarda-redes que o jogo transformou em herói. Nem Carlos Brito joga assim. As suas equipas não se intimidam com o adversário, têm ambição (realista) e tentam explorar todo o relvado.

Faltavam, então, oito minutos para os noventa quando o empate foi desfeito. Não o nulo, porque antes disso, dentro da primeira vintena de minutos, já ambas as equipas tinham marcado. Aos vinte e três, Hulk furou a defesa do Rio Ave, tabelou com Falcao e atirou a contar. Pensou-se que o FC Porto teria aí facilitado a sua tarefa de vencer, que esse golo lhe poderia dar a tranquilidade que a equipa tanto tem procurado. Não. Jogaram-se somente mais dois minutos até João Tomás, elevando-se entre os defesas azuis-e-brancos, fazer voltar tudo ao início. O golo sofrido foi um bom mote para a reacção do FC Porto: pressionante, trocando a bola junto da baliza contrária, procurando marcar o quanto antes. Veio o penalty, Falcao falhou. Foi preciso esperar até Varela, salvador, fazer o golo tão desejado.

Azul esbatido

Colocado: 11/27/2009 - 3 comentário [ Comentar ] - 0 trackback(s) [ Trackback ]
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É uma evidência incontornável: este FC Porto está mais fraco do que no passado. A equipa não tem a mesma eficácia nem a coesão que tantas alegrias lhe valeu. O FC Porto de Jesualdo Ferreira não foi nunca uma equipa que impressionasse pelo futebol apresentado mas fazia uma gestão perfeita do jogo e sabia ser decisivo nos momentos cruciais. Esta época, porém, tem sido diferente: os portistas apresentam um futebol demasiado trapalhão, pouco pressionante e já perderam pontos importantes - dois empates, com Paços de Ferreira e Belenenses, juntam-se a duas derrotas, em Braga e nos Barreiros. No campeonato nacional, à décima jornada, são cinco os pontos de atraso para o primeiro lugar.

Poder-se-á argumentar que, na mesma altura da época anterior, o Leixões liderava com três pontos de vantagem. Também que o Benfica era líder na pausa natalícia e chegou a contar com mais cinco pontos, tantos quantos dispõe actualmente. Tudo isso faz sentido, corresponde à realidade. No entanto, é necessário compreender cada especificidade: uma delas, talvez a maior, é que os encarnados, os rivais mais director, estão mais fortes, e também o Sp.Braga tem demonstrado que se poderá intrometer entre os grandes. Qualquer escorregão poderá, então, para os portistas, ter mais importância do que nas épocas anteriores devido ao aumento da qualidade da concorrência.

Em termos internos, uma das explicações para a pouca consistência do futebol do FC Porto é o desgaste do sistema táctico. Jesualdo, desde que chegou ao Dragão, preferiu sempre o 4x3x3. Época após época viu sair jogadores importantes, mudou as peças mas manteve o desenho do xadrez exactamente da mesma forma. A ideia que fica, actualmente, é que este sistema conta pouco dinamismo e os jogadores estão demasiado presos às suas funções, sem se conseguirem soltar para criar lances de perigo para as balizas contrárias. O 4x3x3 está gasto? Sim, de certo modo, pois torna-se até previsível para os adversários. Frente a equipas com superioridade no meio-campo, o FC Porto sente dificuldades de progressão.

Quando uma equipa não consegue fazer valer o seu jogo colectivo, ter boa ligação entre os sectores médio e ofensivos e colocar todos os maquinismos defensivos em funcionamento, costuma socorrer-se das individualidades. Porém, é extremamente perigoso que uma equipa espere por um golpe de génio que lhe dê a vitória. Este FC Porto, a princípio, valeu-se do talento de Falcao e Belluschi, do instinto de Farías. São jogadores que têm aparecido, no entanto, com alguma intermitência. Os novos ainda não estão totalmente sincronizados, El Tecla já mostrou que é uma boa arma-secreta mas não obtém o mesmo rendimento quando joga de início. Teriam obrigação de decidir quando o colectivo não funciona?

Depois, há Hulk. No início da temporada, após as perdas de Lucho e Lisando, os adeptos centraram as suas esperanças no Incrível. O brasileiro é um jogador de qualidade, indiscutivelmente. Mostrou na primeira temporada em Portugal uma capacidade excepcional de aliar a velocidade à boa técnica que possui. Este afigurou-se como o ano da sua afirmação. Contudo, até este momento, Hulk não tem sido um jogador fundamental como se esperaria. As suas jogadas não fazem tremer as defesas contrárias, em 2009-10 ainda não teve um momento de verdadeiro inspiração. A equipa ressente-se disso, da mesma forma que se ressente do facto de Raul Meireles estar bem menos interventivo do que em temporadas anteriores. Ante o Chelsea, o médio português esteve bem acima do que tem feito. Será, talvez, um sinal de mudança.

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Como almas gémeas. Até agora, cumpridas quatro jornadas, FC Porto e Benfica têm sido iguais nos seus registos. Contam ambas com dez pontos, fruto de um empate, na ronda inaugural, a que se seguiram três vitórias. Esta é aliás uma ideia que já tinha sido deixada na pré-época, ou seja, portistas e benfiquistas equivalem-se no poderio evidenciado. Naturalmente que ainda não estão, nem é isso que se pretende dizer, em ponto de rebuçado mas demonstram, já nesta fase, excelente jogo e golos. Vários golos. São as melhores equipas deste campeonato.

O ataque do Benfica tem mostrado um tremendo poder de fogo. É aquilo a que se pode chamar um verdadeiro rolo compressor. A equipa encarnada tem, até agora, o melhor ataque da prova com catorze golos marcados - muito contribuíram, claro, os oito ante o Vitória de Setúbal. Além disso, e mais importante, demonstra uma facilidade muito grande em chegar às áreas adversárias e em criar lances de golo iminente. A partida em Guimarães, na segunda jornada, foi a menos conseguida por parte da equipa. Saviola, Cardozo, Di María e Fábio Coentrão têm sido as setas quase sempre apontadas ao alvo. Sem qualquer ponta de exagero, este Benfica tem sido o melhor e mais empolgante da última década.

Havia, antes do ínicio da temporada, uma enorme expectativa para saber como se daria o FC Porto sem jogadores da importância e qualidade de Lucho González e Lisandro López. É verdade que o empate inicial, em Paços de Ferreira, deixou nos adeptos portistas uma certa desconfiança em relação ao futuro e ainda devido a uma tal Hulk-dependência. Seguiram-se, no entanto, três vitórias expressivas: Nacional (3-0), Naval (3-1) e Leixões (4-1), sendo que os últimos serviram para afastar fantasmas do passado. Falcao, Varela e Álvaro Pereira têm mostrado boas credenciais. A exibição, na primeira parte, frente ao Leixões roçou quase a perfeição. Pode parecer arriscado mas... este FC Porto está mais encantador do que o anterior.

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