ENTREVISTA COMPLETA A PEDRO AZEVEDO
FUTEBOLÊS: África do Sul esteve à altura do Mundial 2010?
PEDRO AZEVEDO: Em alguns aspectos esteve. Aliás, África do Sul surpreendeu-me pela positiva em algumas coisas. Noutras já contava. Surpreendeu-me sob o ponto de vista organizativo, a logística esteve muito bem montada. É verdade que eles contrataram empresas estrangeiras para colaborar, como teria de ser. Existiu um aspecto importante, também, que não diz muito respeito à rádio, mas ajuda, porque houve muita gente que assistiu aos jogos ouvindo a rádio: as transmissões televisivas foram de grande qualidade e beneficiaram quem assistiu aos jogos do Campeonato do Mundo - foi uma empresa francesa a responsável por essa operação. Para os jornalistas, dentro dos estádios, as acessibilidades, os nossos postos de trabalho, as facilidades concedidas, designadamente em termos da cedência dos espaços, internet... Tivemos condições de trabalho muito boas. Fiquei surpreendido pela positiva.
F: Embora tenha havido um lado mau.
PA: Já não gostei de outros aspectos que dizem, naturalmente, respeito à segurança. Sentiu-se alguma insegurança. Aí as selecções tiveram algumas responsabilidades, designadamente a portuguesa, porque o estágio foi realizado praticamente no mato, em cidades distantes dos principais centros da África do Sul, o que deu alguma insegurança às comitivas, como foi o caso da nossa. Os jornalistas sentiram isso na pele. O assalto a jornalistas portugueses aconteceu muito perto do meu hotel - um lodge exactamente igual ao que se deu esse assalto - e era perfeitamente evitável que tivesse acontecido, se as selecções tivessem escolhido, designadamente o professor Carlos Queiroz, um local mais apropriado para a realização do estágio.
F: Coreia, Alemanha ou África do Sul: qual foi o melhor Mundial em que esteve?
PA: Este foi o melhor de todos. Em condições de trabalho superou o da Alemanha: as nossas posições nos estádios para a realização dos relatos eram melhores do que no Mundial 2006, as facilidades dos contactos com Lisboa, muito mais rápidos, a tecnologia também evoluiu quatro anos - isso é importante que se diga. Sob o ponto de vista das condições de trabalho para os jornalistas, foi o melhor Campeonato do Mundo em que eu estive. Muito melhor do que o de 2006, muito, muito, muito melhor do que o de 2002. São esses os três Mundiais em que eu estive.
F: Até onde pode ir o patriotismo de um jornalista? Cair no chauvinismo é uma tentação?
PA:Não, não, não. O jornalista tem a sua nacionalidade e está lá para dar, essencialmente, notícias da selecção do país onde os ouvintes estão a escutá-lo. A incidência da informação é Portugal, mas tem que ser uma informação rigorosa, séria, claro que sem chauvinismos, sem exageros, sem qualquer tipo de tendência exacerbada pela selecção. E mesmo durante os relatos, que eu sempre disse, e mantenho, que o relato é uma mistura de informação e espectáculo, também é importante que se dê um certo entusiasmo às cores nacionais, tornar aquele vermelho e aquele verde duas tonalidades mais interessantes e coloridas, que as pessoas ouçam com agrado, porque, no fundo, nós, jornalistas portugueses, também queremos que Portugal ganhe. Agora, o querer é uma coisa e não se pode confundir e misturar com isenção e com o rigor da informação.
UMA SELECÇÃO CINZENTA E SEM LIDERANÇA
F: Aproveitando a questão da tonalidade: a selecção foi cinzenta?
PA: Foi muito cinzenta, foi. A selecção foi muito cinzenta. O jogo com a Costa do Marfim foi um deserto de ideias, o jogo com Brasil foi um deserto de ideias, o jogo da Espanha idem aspas. A excepção foi a Coreia do Norte, que era uma equipa teoricamente muito mais fraca, mas curiosamente quando o marcador ainda estava equilibrado teve boas oportunidades para se adiantar e até para surpreender Portugal. A Coreia entrou com muita sobranceria, porque fez um bom jogo com o Brasil e convenceu-se de que poderia ganhar a Portugal, foi esse o seu problema. Caso contrário, apesar dos sete-zero, a selecção portuguesa se calhar até nem teria ganho à Coreia do Norte.
F: A selecção viveu no oito, saltou para o oitenta e regressou ao início.
PA: A ideia que eu tenho da selecção portuguesa neste Campeonato do Mundo, muito por culpa do seleccionador, do actual... (actual, que já nem é actual, o seleccionador suspenso!...) é que Portugal tem um sistema de jogo de pontapé para a frente. É o sistema do tranco e barranco! Portugal joga para o Ronaldo correr atrás da bola, o que é um sistema completamente inadequado para as características do principal jogador de Portugal e do Mundo, neste campo a par do Messi. A selecção portuguesa teria de jogar para o Ronaldo, mas de uma forma diferente, sem o obrigar a correr desenfreadamente, tipo Obikwelu, atrás da bola. Não pode ser. Portanto, esse tipo de jogo limitou muito a selecção portuguesa, porque é um estilo que favorece quem defende, o pontapé para a frente para a corrida do Ronaldo beneficia claramente o defesa adversário. Por isso, Portugal ficou completamente manietado, teve poucas ocasiões de golo nos três jogos que citei, fora a Coreia do Norte. Foi uma equipa muito cinzenta, muito abúlica e que, na minha opinião, regrediu com a aposta que a Federação fez no Carlos Queiroz.
F: Então é justo considerar como um fracasso a prestação de Portugal?
PA: Para mim, este Campeonato do Mundo, foi um fracasso. É fácil dizer como o Carlos Queiroz: é natural perdermos com a Espanha por uma bola a zero. Não é só esta derrota que tem que ser avaliada. Têm que ser avaliados quatro jogos, o rendimento da equipa nessas partidas e o sistema utilizado pelo Carlos Queiroz. Diria que Portugal tem um sistema inadequado e um estilo de jogo que só por si, na minha opinião, motiva o afastamento do seleccionador: o estilo não é compatível com os jogadores. É completamente desapropriado.
F: Carlos Queiroz é o principal culpado?
PA: A equipa técnica, neste caso o Carlos Queiroz, é a principal culpada desta prestação negativa, muito cinzenta e sem graça, que Portugal teve neste Campeonato do Mundo.
F: O que seria positivo?
PA: Espectáculos convincentes, jogos em que Portugal impusesse um estilo de jogo compatível com a qualidade dos jogadores que tem e que não modificasse três/quatro jogadores por jogo, porque é impossível assimilar processos, criar rotinas e manter a mesma bitola em termos quantitativos. Foi o que o Carlos Queiroz fez. Ainda estamos hoje por saber a razão para o Nani ter saído da selecção...
F: Como é possível que tenha passado tanto tempo despercebido?
PA: As explicações ainda não foram convincentes, aliás os médicos da selecção ainda não explicaram a lesão, o que também se estranha, como é óbvio, não colocando em causa a honestidade de ninguém. Mas é estranho. Nani era o jogador em melhor forma antes do Campeonato do Mundo, melhor do que Ronaldo, Simão ou do que qualquer outro jogador da linha atacante, era uma grande esperança de Portugal e vai ser um dos principais jogadores do Manchester United e da Premier League nesta nova época, não tenho dúvida. Ninguém percebeu. Como também ninguém entendeu a chamada de Pepe.
F: O que falhou na África do Sul?
Mandões, adultos e com nariz empinado. O FC Porto apareceu transfigurado. Com audácia, garra e preparado para deixar a última gota de suor em campo. O golo chegou cedo: terceiro minuto. Marcou Rolando, um novo líder no centro da defesa portista, órfã de Bruno Alves, procurando a sua emancipação absoluta. Não tremeu, ao contrário dos defesa benfiquistas e de Roberto, trapalhões e indecisos, colocando a bola no fundo da baliza encarnada. A tonalidade azul, forte e concentrada, instalou-se logo no começo - depois de uma primeira aventura de Fábio Coentrão. E não se tratou de um fogacho, um mero oásis, apenas fogo de vista. O FC Porto manteve-se unido, fulgurante, carregado do espírito de vitória, pressionando alto e impedindo que o Benfica ganhasse o seu território e tivesse a bola. Os dragões instalaram-se confortavelmente, aniquilaram o rival e jogaram com atitude. O Benfica demorou a reagir.
Aos encarnados, abalados pelo golo precoce do FC Porto, faltou velocidade, criatividade e rasgo. Faltou, numa palavra, lucidez: para colocar a bola no chão, pensar e organizar o seu futebol. Os dragões, pressionantes e aguerridos, são grandes responsáveis por isso. A cabeçada de Rolando encheu o peito do FC Porto, trouxe a paz de espírito necessária e deixou a equipa portista com confiança renovada. O Benfica, confuso, surpreendido e errante, encontrou pouco espaço. A primeira vez que o campeão deu um ar da sua graça, quebrando o controlo azul, aconteceu aos vinte minutos, num remate forte de Carlos Martins que Helton defendeu bem. O Benfica teve pouca profundidade, nunca conseguindo desorganizar a defensiva portista. O regresso à fórmula do ano passado, bem-sucedida, não resultou: nem Aimar nem Martins tiveram bola, Airton não conseguiu ligar os sectores e Fábio Coentrão não foi o extremo desejado.
A venda de Di María levantara uma questão de fundo: teria o Benfica substituto à altura? Nos jogos de preparação, mesmo não havendo nenhuma fotocópia, Nicólas Gaitán e Franco Jara deram boas indicações. Jorge Jesus, em certa altura, chegou mesmo a adoptar um novo esquema táctico, soltando um dos jogadores do meio-campo para a formação de um tridente no ataque. No jogo frente ao FC Porto, contudo, o treinador encarnado adiantou Fábio Coentrão no terreno e colocou, com isso, César Peixoto no lado esquerdo da defesa do Benfica. A dinâmica pretendida não apareceu: Hulk e Varela, homens capazes de todas as diabruras, pujantes e destemidos, fizeram a cabeça em água aos defesas do Benfica, imprimiram um ritmo forte, possante e intenso. O FC Porto jogou bem pelas alas, com toque curto, sempre de cabeça bem levantada. O dragão está diferente, mais solto e ousado, beneficiando do golo de Rolando.
O AR DE GRAÇA DO CAMPEÃO
O remate de Carlos Martins, aos vinte minutos, tratou-se apenas de uma ameaça. Ou, no fundo, um sinal de que o Benfica, mesmo tendo despertado a medo, pretendia corrigir os erros, dizimar o prejuízo e lançar-se para a vitória. O FC Porto, não caindo na tentação de refrear os ímpetos para saborear a vantagem tangencial, um pecado de morte, respondeu de pronto, na mesma moeda, num tiro de Sapunaru que Roberto, bem, desviou para canto. Foi, porventura, pouco depois dessa oportunidade de aumentar a vantagem, num período de controlo portista capaz de deixar o Benfica afastado da baliza de Helton, que os encarnados cresceram. Depois da meia-hora, El Conejo Saviola, numa boa envolvência ofensiva, rematou ao lado. Apesar disso, contudo, o perigo, capaz dos maiores estragos, esteve sempre ligado ao FC Porto. Em cima do intervalo, Luisão, um verdadeiro chefe defensivo, impediu o golo de João Moutinho.
Com um meio-campo capaz, tanto a impedir os avanços do Benfica como a lançar as investidas atacantes de Hulk e Varela, o FC Porto ficou com o jogo na mão. Restava perceber qual seria o tempo de validade para tamanha intensidade e entrega, duas características inerentes desde o primeiro minuto, numa fase tão precoce da época. Com o passar dos minutos, os portistas perderam, com naturalidade, a frescura o início e a equipa baixou as suas linhas. O Benfica, com quarenta e cinco minutos para dar a volta, procurou reagir, conseguiu ter mais tempo a bola, encontrar mais espaço para progredir mas faltou sempre o clique de génio capaz de resolver. A equipa não virou a cara à luta, teve coração, espreitou oportunidades. Foi, contudo, insegura e pouco incisiva nas suas ideias. O golo andou perto, aos sessenta e seis minutos, de novo num remate de Carlos Martins travado por Helton e sem emenda certeira de Saviola.
O GOLPE FINAL
O golpe de misericórdia do FC Porto estava guardado. A equipa azul deixara de ser tão pressionante e dominadora, passara a usar a velocidade e o balanceamento do Benfica para criar perigo. Ao aviso benfiquista, seguiu-se o segundo golo portista. Jogada simples, de puro contra-ataque, tão simples como eficaz: Varela recolheu o lançamento longo, encarou com Luisão, coxeando e há muito com a substituição pedida, cruzou rasteiro, tenso e mortal, para um golo oportuno de Radamel Falcao. O FC Porto colocou um ponto final nas dúvidas. Colocou as mãos sobre a Supertaça, a décima sétima do seu historial, para não mais largar. Antes do final, numa última tentativa, Saviola obrigou Helton a uma belíssima defesa. O guarda-redes brasileiro, agora promovido a capitão, foi um pilar importante, transmitiu serenidade e resolveu com eficácia os lances de perigo que os atacantes do Benfica lhe colocaram. O sucesso começou nele.
Olhado com desconfiança à partida, o FC Porto encerra o primeiro jogo da época com uma vitória. Vale um título, renovando a conquista do ano passado, para além de trazer uma enorme confiança para o ataque às primeiras jornadas do campeonato. Os dragões venceram um rival directo, o actual campeão nacional, deixando boas indicações, sobretudo do meio-campo para a frente - com destaque para exibições de João Moutinho, Varela e Rolando -, além de que a equipa, voluntariosa e unida, procurou sempre uma ajuda constante capaz de travar o Benfica. Para os encarnados fica uma derrota, falhando frente a um rival a conquista de um troféu, num jogo em que o Benfica entrou a perder e nunca demonstrou verdadeira capacidade para desorganizar e empurrar o FC Porto. Houve, até, algum desnorte que levou à criação de picardias e entradas bem ríspidas. Óscar Cardozo, César Peixoto e David Luiz são três exemplos disso.
Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.
Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.
Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.
O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.
A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado - afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.
Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.
UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO
A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito - Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas... poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.
Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.
A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo - algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de "matéria delicada", a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.
Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o "amadorismo" existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?
A principal agitação, num defeso até então tranquilo, chegou de Alvalade. Com o FC Porto como pano de fundo num enredo centrado em João Moutinho. O capitão do Sporting já manifestara o seu desejo de rumar a outras paragens. No ano passado, se bem que numa fase ainda mais adiantada, Moutinho revelou publicamente o seu desejo em sair e viu com bons olhos o interesse do Everton. Seria a possibilidade de, depois de quatro anos ao mais alto nível, conseguir um salto na carreira. O negócio acabou por não se concretizar e os leões, sobretudo por acção de Paulo Bento, que sempre o considerou um indiscutível, fizeram força para o manter. Apesar de algo fragilizado, acusado pelos adeptos de ter errado ao assumir querer mudar-se, continuou no clube. A sua última época, contudo, à semelhança de toda a equipa, foi discreta. O desempenho de Moutinho terá sido, porventura, o mais modesto desde que começou a jogar no Sporting.
Feito jogador no Sporting, saltando dos juniores para a equipa principal e com posição cimentada sob o comando de Paulo Bento, a relação de João Moutinho com os adeptos ficou algo comprometida, devido ao atrito criado no início da época. Sem possibilidade de se mostrar no Campeonato do Mundo, uma vez que não fez parte dos eleitos de Carlos Queiroz para rumar à África do Sul, as possibilidades de saída pareciam, apesar de tudo, remotas. No arranque da nova época, há pouco mais de uma semana, o jogador demonstrara uma maior insatisfação pela continuidade e o próprio clube - quando, por exemplo, foi noticiado que, por decisão de Paulo Sérgio e Costinha, Moutinho poderia perder a braçadeira de capitão - deu sinais de que não pretendia, mesmo reconhecendo a valia do jovem médio, ter um elemento contrariado no seu plantel. De súbito, sem que nada o fizesse prever, o FC Porto atacou em força. E com eficácia.
João Moutinho ainda não é oficialmente jogador do FC Porto. A verdade, porém, é que se trata apenas de uma questão de horas. O interesse portista, já assumido há um ano por parte de Pinto da Costa, que via no então capitão do Sporting um jogador à Porto, moveu João Moutinho a rumar ao Dragão. Se bem que ainda não estejam acertados todos os detalhes, de acordo com o que tem sido possível apurar, o negócio deverá envolver um pagamento de dez milhões de euros (um record em transferências feitas entre clubes portugueses, mas menos de metade da cláusula de rescisão que o jogador possui no seu contrato com o Sporting - 22,5 milhões) e ainda a inclusão, por parte do FC Porto, de Nuno André Coelho - um central raramente utilizado pelos dragões, com apenas sete jogos na última época, embora seja tido como um valor seguro para o futuro. Nas últimas horas o nome de Farías também tem sido avançado como moeda de troca.
Pela qualidade do jogador, o FC Porto faz um excelente investimento. Para além de ter as tais características que suscitaram o encantamento de Pinto da Costa, garra e ambição, Moutinho é técnica e tacticamente evoluído e, apesar de ter vivido uma época de menor fulgor, já mostrou tratar-se de um valor seguro. João Moutinho será, para a nova equipa que começa a ser delineada por André Villas Boas, uma pedra importante no reforço do meio-campo - tendo em conta, também, uma mais do que provável saída de Raúl Meireles. Financeiramente, num momento em que os clubes sentem cada vez maiores dificuldades para apretrecharem convevientemente os seus plantéis, dez milhões de euros (caso se confirme) é um número elevado. No entanto, se tivermos presente que João Moutinho deixa o Sporting por menos doze milhões e meio do que o estabelecido na cláusula de rescisão, é bom. Muito bom.
Na perspectiva do Sporting há duas formas distintas ver a venda de João Moutinho. Por um lado, representa a perda do capitão, um jogador titularíssimo e, por isso, tido como fundamental na manobra da equipa. Saindo por um valor bem inferior ao da cláusula é mais um motivo de contestação à política de José Eduardo Bettencourt. Existe, contudo, quem veja o negócio como benéfico para os leões. Moutinho, afinal, já revelara vontade de sair e, por certo, não teria para Paulo Sérgio o mesmo relevo que para Paulo Bento e Carlos Carvalhal. O clube recebe dez milhões de euros (que só não convencem os sportinguistas devido à cláusula), um jogador vindo do FC Porto e terá, à partida, um encaixe de trinta por cento numa eventual venda. Seja como for, o que parece mais correcto afirmar é que os dragões ganham um reforço de peso e Moutinho, terminando um ciclo no Sporting, terá todas as condições para ser valorizado no Dragão.
UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS
O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.
Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.
Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.
CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE
Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.
A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.
OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM
A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.
Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.
Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.
Ter um original e uma cópia não é bem a mesma coisa. À primeira vista pode parecer igual, sem diferenças, tudo bem detalhado. Depois, bem diferente, são as caricaturas. Não querem semelhanças, evitam-nas. Pretendem, antes, destacar os defeitos, as imagens de marca, o que pode ser ironizado. O original da selecção francesa, por exemplo, é fortíssimo: equipa vencedora, campeã mundial por um vez e europeia em duas, habituada a glória, uma potência futebolística. Não engana. No Mundial 2010, contudo, esteve uma França caricaturial. Equipa sem força, sem garra, sem génio, sem rumo. Tudo aquilo que uma selecção como a francesa tem de combater e ser o completo oposto. Houve ainda todo o tipo de casos. O resultado nunca poderia ser bom: a França cai na fase de grupos, saindo pela porta dos fundos, com apenas um ponto.
O Mundial 2010, para a França, começou torto. Os franceses não conseguiram garantir o apuramento directo, ficando atrás da Sérvia - uma estreia em Campeonatos do Mundo - e estando, por isso, obrigados a disputar o playoff. A República da Irlanda, selecção emergente comandada por Giovanni Trapattoni, foi o adversário. Após prolongamento, Gallas marcou. O golo correu Mundo, visto e revisto milhões de vezes. Houve batota: Henry recebera a bola com os braços, antes da assistência. Martin Hansson, o árbitro sueco, apontou para o centro do relvado. Shay Given saltou da baliza, protestou, olhou atónito. Trapattoni, experimentado, enlouqueceu. Num ápice todos se juntaram aos irlandeses: a França não merecia chegar à África do Sul. A verdade é que, com ou sem polémica, foram os franceses a garantir a vaga.
A França, pelo seu prestígio, é sempre uma selecção a considerar para chegar longe. A uma eventual vitória, repetindo o triunfo no Mundial de 1998, onde foi anfitriã, talvez não. Os franceses sentem-se, ainda, orfãos de um líder, de um génio, de alguém que seja verdadeiramente decisivo. Sentem, no fundo, falta de Zidane. Há Henry, Ribéry ou Malouda, sim, mas nenhum deles se assume como o homem que impede, como numa pequena aldeia gaulesa, que o céu lhes caia em cima da cabeça. Também Raymond Domenech sempre fez por ser diferente. Poderia sê-lo de forma positiva; não é, preferiu tentar ser engraçado do que ficar na graça dos adeptos. Nunca foi bem visto. E nunca deixou aquele seu ar fechado, sisudo, enfadonho e sem sorrisos. As opções que toma tornam-no ainda mais incompreensível. A exclusão de Benzema do Mundial é um exemplo.
Jogar com alegria é um dos princípios para se ser bem-sucedido. Passar, correr, fintar, divertir-se enquanto o faz. Jogar para ganhar, com profissionalismo, mas retirando o maior prazer disso. À França, mais do que qualquer coisa, falta vontade. Os jogadores estão no campo, posicionados, parecem preparados para o jogo. Não estão, porém. Fazem figura de corpo presente, quase que cumprem uma obrigação, não têm chama. A motivação que deveria estar inerente a um jogo assim, onde o país é representado na maior prova de selecções a nível mundial, perde-se. A equipa é a imagem do treinador, da tal frieza de Raymond Domenech, não há uma ideia comum ou um objectivo definido. A França quer ganhar mas não faz por isso. É, então, sinónimo de fracasso. A selecção francesa, depois do alerta no apuramento, nunca se endireitou.
Sempre que algo corre mal parece que não há nenhum antídoto capaz de travar a má onda. É a Lei de Murphy, onde tudo o que é mau vem por acréscimo, no seu esplendor máximo. Os franceses não o souberam prevenir. A própria Federação, inicialmente, tem uma grande parte das culpas: não há explicação para que, na antecâmara do início do Mundial 2010, Raymond Domenech tenha sabido que irá, após a aventura na África do Sul, ceder o seu lugar. Todas as situações que ao longo dos tempos se foram acumulando tiveram reflexo na prestação no Mundial. Tendo como adversários a equipa anfitriã, Uruguai e México, os franceses falharam a toda a linha: nulo com os uruguaios, derrota inapelável frente aos mexicanos que deixou o au revoir à porta e, por fim, um novo desaire, já com a selecção envolta num mar de polémica, com a África do Sul.
Um ponto, um golo marcado e quatro sofridos. Os números, para uma selecção com o estatuto da França, são confrangedores. Juntam-se aos maus resultados e mau futebol, apático e inconsequente, todos os problemas internos, numa espécie de Saltillo à francesa, que afectaram os gauleses. A expulsão de Nicolas Anelka, após ter insultado o treinador Raymond Domenech no intervalo da partida com o México, foi o ponto de partida para a demissão do líder da comitiva francesa e ainda para a greve a um treino, em solidariedade com o avançado do Chelsea, que levou a um desentendimento entre Patrice Evra, um dos capitães, e um elemento da equipa técnica. Tudo isso somado só poderia dar insucesso. É causa e consequência de uma selecção à deriva, sem rei nem roque, incapaz de lutar contra a fatalidade do destino. A França corou.
Antes disso, porém, houve ainda Liedson. O Levezinho foi suplente, cedendo o seu lugar a Hugo Almeida, que respondeu com um golo, mas entraria. Era um bom momento para se reencontrar com os golos. Foi por seu intermédio que surgiu o quinto tento português. Uma mão-cheia, tudo óptimo, tudo nos conformes. Ronaldo lá continuava a tentar. Meneia a cabeça, sorri, nada feito. Mas a sorte, antes de costas voltadas, havia de estar com ele: isolou-se, tentou passar pelo guarda-redes Ri, foi travado, a bola saltou-lhe para o pescoço, deslizou e caiu no pé. Golo numa baliza deserta. Não estivera muito em jogo, demonstrara dificuldades, mas ganhara no final. Para terminar, fixando um resultado histórico, Tiago, de cabeça, bisou. Sete golos, moral em alta, passo importante rumo aos oitavos-de-final. O Mundial começou agora, Portugal!
O Campeonato do Mundo de 2010 começou há uma semana e dois dias. Jogaram-se, neste período, vinte e seis jogos. Nove deles resultaram em empate. Desde cedo se percebeu que este seria um Mundial diferente. Realizado pela primeira vez no continente africano, na África do Sul, ficou marcado, à partida, pela propalada insegurança e pelas enormes diferenças existentes com a realidade europeia a que nos habituamos. Surgiram as vuvuzelas, com o seu ruído ensurdecedor, e a Jabulani, a bola oficial criticada por todos, sobretudo pelos guarda-redes, que é acusada de causar sérios danos. Em nove dias de prova, com surpresas, bons momentos e verdadeiros frangos pelo meio, o certo é que os adeptos de futebol ainda não assistiram a espectáculos verdadeiramente envolventes. Contudo, as amarras da primeira jornada, demasiado conservadora, parece estarem a perder força. O futebol só tem a ganhar. E os adeptos.
Um apuramento e um hat-trick argentino.
A Holanda, com duas vitórias, foi a primeira equipa a garantir o apuramento para os oitavos-de-final do Mundial. Mesmo não deslumbrando, como a Holanda do Euro 2008, a Laranja Mecânica venceu a Dinamarca e o Japão, conseguindo o passaporte para seguir em frente. Gonzalo Higuaín, avançado argentino, entrou na história do Mundial 2010 como o primeiro jogador a conseguir um hat-trick. Na segunda jornada, no grupo B, a Argentina confirmou as indicações deixadas com a Nigéria, mostrando-se candidata, e, mantendo a ofensividade e a descomplexidade própria de Maradona, venceu a Coreia do Sul, com um enorme contributo de Higuaín - o último a marcar três golos, no Campeonato do Mundo da Ásia, havia sido Pauleta, na partida frente à Polónia, na única vitória portuguesa na fase de grupos (4-0).
Favoritos? Mostrem-no!
Campeã mundial, elenco de estrelas, grande candidata à vitória, inédita, no Mundial da África do Sul. A Espanha foi apontada, a par do Brasil, como selecção com mais créditos para chegar longe e poder ambicionar uma triunfo em 2010. Mas começou mal. Perdeu, surpreendentemente, frente à Suíça, num golo de Gelson Fernandes, trapalhão e feliz, que travou a euforia espanhola. Ottmar Hitzfeld, o experientíssimo seleccionador da selecção helvética, preparou um plano, com duas linhas bem compostas, que taparam espaço e impediram que os espanhóis, com Xavi e Iniesta, colocassem em prática o seu futebol rendilhado. Os suíços atiraram areia para o carrossel espanhol. Foi um revés, um alerta, na estreia no Mundial - há ainda jogos com Honduras e Chile. Espanha tem valor certo mas há que o provar. Só assim poderá ser mesmo candidata.
Entre margens: bom e mau.
A Alemanha começou em grande: vitória, boa exibição, goleada. Foi, aliás, a primeira exibição a conseguir um resultado gordo, quebrando a monotonia, num triunfo, por quatro golos, sobre a Austrália. Dos crónicos candidatos, a par da Argentina, foi quem melhor confirmou as credenciais. No segundo jogo, com a Sérvia, quando se esperaria que os alemães mantivessem a boa fase e dessem um passo fundamental rumo ao apuramento, a selecção de Joachim Löw deixou-se surpreender. Os sérvios, comandados por Radomir Antic, num jogo intenso e vivo, chegaram à vantagem e conseguiram manter a vitória até final - pelo meio, Stojkovic, guarda-redes ligado ao Sporting, parou uma grande penalidade de Podolski. Os alemães, que tão bem haviam estado, claudicaram. O terceiro jogo, frente ao Gana, será decisivo. Os ganeses lideram.
Tradição ou fragilidade?
Parece sina: a Itália começa mal. Ora, isso não é sinónimo de uma participação desastrada e mal-sucedida. Apesar de arrancar mal, conseguindo pouco mais do que os mínimos na fase de grupos, os italianos emergem nos jogos a eliminar. O expoente máximo de uma falsa partida que terminou em glória para a selecção transalpina foi dado no Mundial de Espanha, em 1982, quando a Itália, com Paolo Rossi, completou a fase de grupos com três empates e conseguiu, depois, vencer o título mundial. A entrada no Mundial 2010, seguindo a tradição, também não foi feita com o pé direito: a selecção comandada por Marcello Lippi, campeão mundial em 2006, não foi além de um empate, a um, frente ao Paraguai. O resultado de estreia, numa exibição sempre num futebol à italiana, não satisfez. Só para manter a tradição ou, agora, um sinal de fragilidade?
Ao pé coxinho.
De Portugal, sobretudo em termos exibicionais, esperava-se bem mais. Os portugueses, na estreia ante a Costa do Marfim, mostraram pouca garra, pouca vontade de arriscar e imenso medo em começar com uma derrota. Seria sempre mau fazê-lo, naturalmente, ainda para mais frente a um adversário directo no que toca às contas do apuramento. Na segunda jornada, na partida com a Coreia do Norte, considerado como adversário mais frágil mas que causou algumas inesperadas preocupações ao todo-poderoso Brasil (vitória, exibição satisfatória), a selecção portuguesa terá de jogar de forma mais aberta para que consiga uma vitória. Da Costa do Marfim, jogando no erro de Portugal, também era expectável algo mais, até pela classe dos jogadores daquela que é tida como a melhor equipa africana. Precisam de mais.
A desilusão.
A França é a maior desilusão. Equipa apática, amorfa, sem assomo de alegria, incapaz de fazer frente às adversidades. À imagem de Raymond Domenech, tristonho e carrancudo, um seleccionador nunca bem visto e agora alvo principal da ira dos adeptos franceses, envergonhados pela prestação da sua equipa. Nada de acordo com o prestígio, o estatuto e o historial que os gauleses, finalistas vencidos do último Mundial, possuem. Num grupo, onde à partida seriam os principais favoritos a garantir a passagem, apesar da chegada atribulada à África do Sul, com México, Uruguai e África do Sul, os franceses coraram pelas más prestações. Um nulo com os uruguaios e uma derrota, inapelável, frente aos mexicanos, uma boa surpresa, deixam a França em maus lençóis. Há que ganhar e esperar. Au revoir, Raymond?
Os destaques sul-americanos.
A Argentina, embora ainda não tenha assegurado a passagem aos oitavos, mostrou bom futebol, sempre colocando os olhos na baliza adversária, e alcançou duas vitórias: uma sobre a Nigéria e outra, robusta, frente à Coreia do Sul. Está fortalecida e muito próxima da passagem. A agora selecção de Diego Armando Maradona tenciona repetir os feitos no México, quando tinha El Pibe como estrela. Para além dos argentinos, há ainda Uruguai e México, selecções que ocupam os dois primeiros lugares, com quatro pontos, no grupo A - um empate, quando se defrontarem na última jornada, permitirá a passagem a ambos. Também o Paraguai, que empatou com a Itália, e o Chile, que lidera o grupo da Espanha, surpreenderam na primeira ronda. Resta perceber se terão capacidade para dar continuidade.
Bronca: Anelka e Domenech.
Raymond Domenech, ainda seleccionador francês, com a continuidade riscada em detrimento de Laurent Blanc, é um homem difícil. Sempre foi. Para os franceses, apesar de ter chegado à final em 2006, nunca foi bem visto. Provocador, incompreensível nas palavras e nos actos, pouco claro para explicar as suas opções. Num período tão conturbado para os gauleses, é sobre si que recaem grande parte das críticas dos apaixonados adeptos. Domenech, ante o México, necessitava de arriscar, não o fez, deixou Henry e Anelka no banco. O avançado do Chelsea insurgiu-se contra o seleccionador, contestou-o, insultou-o e recusou-se, depois, a pedir desculpas. Recebeu, claro, guia de marcha para regressar ao seu país. Sinal evidente das dificuldades sentidas pela França devido ao seu desastrado arranque na prova.
Terceiro dia de competição e entramos na fase dos jogos amorfos, sem brilho, excepção feita à sempre candidata Alemanha, que não deixa os seus créditos por pés alheios e venceu facilmente o seu jogo, com goleada. Nos outros encontros, muito fraquinhos e sensaborões, vitória do Gana com uma infantilidade de Kuzmanovic (mão desnecessária na área); no outro jogo, a Eslovénia, com exibição fraca, venceu a Argélia, que jogou melhor, com um frango monumental de Chaouchi. Esta jornada trouxe a primeira vitória africana (Gana), a primeira grande penalidade, três expulsões (uma em cada jogo) e o resultado mais desnivelado até agora: 4-0 da Alemanha. O dia valeu por isso, ver jogar os alemães.
Argélia-Eslovénia (0-1): Frango apurado em jogo sensaborão
Jogo fraco com mais cautelas defensivas do que iniciativas atacantes. Ainda assim melhor a Argélia, mas com muita ingenuidade à mistura. O golo teria que surgir de um bambúrrio da sorte, ou do azar, neste caso. Chaouchi, guarda-redes argelino, imitou Green e deu um frango monumental a onze minutos do fim. Foi a primeira vitória da Eslovénia numa fase final do Mundial e festejada com pompa e circunstância, até porque lidera o Grupo C.
Sérvia-Gana (0-1): A mão que embala a vitória
O segundo jogo do dia foi mais agradável, mas sem deslumbrar. Mais afoitos, atrevidos e com mais velocidade os jogadores do Gana. Mais tecnicistas mas mais ingénuos os jogadores da Sérvia, que têm bons executantes, mas fraco colectivo. A vitória caiu para o lado africano com uma ingenuidade de Kuzmanovic que estendeu o braço para a bola, naquela que foi a primeira grande penalidade do Mundial. Foi a primeira vitória de uma selecção africana neste Mundial, curiosamente, treinada por um sérvio, Milonav Rajevac, que recusou festejar. Que se saiba ninguém levantou grandes objecções e acusou o homem de anti-patriota. Pois não, Toni?
Alemanha-Austrália (4-0): Máquina alemã com O(z)il de qualidade
Dúvidas que a Alemanha é sempre uma candidata? Foi até agora a exibição mais convincente de um candidato, e já vimos Argentina e Inglaterra. Goleada sem apelo nem agravo, pese embora a má prestação do árbitro mexicano Marco Rodriguez. Uma grande penalidade por assinalar contra a Alemanha (resultado em 2-0) e uma expulsão (Cahill) exageradíssima. Mas uma má arbitragem em oito jogos não é mau. Boa foi a exibição germânica, uma máquina que apareceu bem oleada sob a influência do jovem (21 anos) Ozil, que tem um excelente pé esquerdo, finta curta e letal e bons passes de ruptura. Esta é até a arma mais forte dos alemães, com Müller, Klose e Podolski a serem exímios nas diagonais, que executaram na perfeição nas costas da defesa contrária. Resumindo, temos candidato.
MINHA ÁFRICA é um espaço de Bernardino Barros sobre o Mundial 2010
A época anterior do FC Porto, após quatro anos de glórias, resume-se a uma palavrinha a que todas as equipas querem fugir e não ousam, sequer, pensá-la: fracasso. Tornou-se, por isso, obrigatório mudar. Um ciclo fechou-se. Foi o de Jesualdo Ferreira. O treinador tem méritos no tricampeonato (o primeiro título fora conquistado por Co Adriaanse), foi importante na cimentação de vários jogadores e apareceu sempre em defesa dos dragões. Jesualdo cresceu como técnico e fez crescer o clube. Chegou, contudo, a hora do divórcio. A temporada não correu bem e há essa necessidade de mudança no FC Porto. Pinto da Costa virou a página, rompeu com o anterior paradigma. O anúncio oficial da contratação de André Villas Boas serviu para mostrar essa vontade de injectar sangue novo na equipa. E a de correr um tremendo risco. A aposta está feita.
Pela juventude de Villas Boas e pela obrigatoriedade de superar a temporada transacta que assiste ao FC Porto, a escolha do ex-treinador da Académica seria sempre muito arriscada. Em momentos de aperto, como foi este caso dos dragões, seria mais natural que os responsáveis optassem por alguém mais calejado, experiente e conhecedor da realidade do futebol português. André Villas Boas tem a seu favor o facto de ser portista, ter entrado muito jovem no clube e o conhecer bem. Há, porém, neste jogo de prós e contras, alguns factores que, com normalidade, fazem com que a sua contratação seja vista com desconfiança: apenas iniciou a carreira de treinador em Outubro, após deixar as estatísticas e observações que durante sete anos fez na equipa técnica de José Mourinho, e, apesar da melhoria vislumbrada no futebol da Académica, nada provou ainda.
Em Outubro passado, com a Académica na última posição, José Eduardo Simões, líder dos estudantes, abriu as portas a André Villas Boas. O até então colaborador de José Mourinho deixou o Internazionale para apostar verdadeiramente na carreira de treinador principal. A sua entrada melhorou substancialmente a Académica: futebol positivo, com os olhos colocados na baliza adversária, tentando usar as suas armas para supreender os rivais. Com isso, naturalmente, os estudantes ascenderam na classificação. André Villas Boas rapidamente se tornou num treinador na moda. Houve quem nele visse um verdadeiro discípulo de Mourinho e o Sporting, antes de Carlos Carvalhal, manifestou interesse na sua contratação. O estado de graça do treinador acabou por ficar algo afectado pela ponta final da Académica - conseguindo a manutenção mais dificilmente do que era expectável após a sua chegada.
A Académica foi, afinal, apenas um ponto de passagem para André Villas Boas. Funcionou como trampolim para, em poucos meses, assumir o comando do FC Porto. Com apenas trinta e dois anos, onde Jesualdo Ferreira chegou com sessenta, Villas Boas tornou-se no mais jovem treinador de sempre nos portistas. O tempo passado em Coimbra bastou para Pinto da Costa, com toda a sua experiência, apostar todas as fichas disponíveis. A André Villas Boas, os portistas pedem que mantenha as ideias que implementou na Académica, com um futebol vistoso e envolvente, que consiga tirar partido da escola privilegiada que teve com Bobby Robson e José Mourinho e dos maiores recursos que lhe colocarão à disposição, para recolocar o FC Porto no caminho das conquistas (voltando a roubar o título nacional ao Benfica). O desafio será triplo: para o FC Porto e para André Villas Boas, sobretudo, mas também para comprovar o sucesso da aposta pessoal de Pinto da Costa.