Por volta das dez e meia da manhã de Domingo, dia 18 de Dezembro, já eu circulava nas imediações do Estádio do Dragão, com o meu filho, à espera de que outros nossos companheiros chegassem, para dali partirmos, a caminho do Estádio da Luz, onde, pelas oito e um quarto da noite, o Porto defrontaria o Benfica.Estava uma manhã fresca, mas enxuta e desanuviada.Às onze e um quarto fizemo-nos à estrada, melhor dizendo, à auto-estrada que liga as duas maiores cidades do País.Na região do Pombal outros portistas, companheiros de viagem, se juntaram a nós, num restaurante onde almoçámos divinalmente um arroz malandrinho e uns panadinhos como só ali se servem.Depois retomámos a A1, rumo ao rectângulo onde tudo se iria passar.Pelo caminho anedotas, recordações de jogos que já lá vão, dos tempos em que o Porto, em passando a Ponte de D. Luís, já ia a perder por 0-1, e doutros tempos, mais do nosso tempo, em que o Porto, ainda não saiu do Porto e, só pelo respeito que mete, já ganha por 2-0.Aos poucos íamo-nos aproximando de Lisboa.As poucas nuvens do céu anunciavam um bom jogo, seco e bem jogado, na relva também seca e bem tratada do Estádio da Luz. A temperatura parecia descer, mas todos íamos preparados para o frio, avisados que estávamos pelos órgãos de comunicação social.Ao largo de Leiria o céu já era branco, da cor do leite, e pouco depois, cinzento-escuro.Quase logo em seguida, uma poalha de gotinhas de chuva, minúsculas, cobriu o pára-brisas. Eram as quatro da tarde.Em Vila Franca de Xira já eram grossas as gotas de chuva, se bem que espaçadas, como se não passassem de um mero chuvisco.Foi precisamente ao entrarmos nas Amoreiras, no local escolhido pelas forças de intervenção da Polícia de Segurança Pública, para ajuntamento dos adeptos portistas e respectivas claques, que a chuva se desencadeou decisivamente, para só parar no dia seguinte. Foi também nessa altura que tivemos de sair dos carros e engrossar aquilo que se pretendia vir a ser um cortejo.Se tivéssemos esperado nos carros, não nos teríamos molhado tanto, mas, quando quiséssemos entrar no cortejo, teríamos de o fazer no fundo da sua cauda, o que nos levaria a ter de ficar no anel superior das bancadas da Luz, de onde os jogadores parecem anões.Fomos, então, para a nona ou décima fila do cortejo, fechado à frente por um linha de doze ou quinze soldados de intervenção da PSP, daqueles que, quando o caldo azeda, de viseira caída, zurzem a bom zurzir com aqueles instrumentos inteligentes, os bastões, que ostensivamente trazem à cintura.A chuva rapidamente se tornou impiedosa, caindo a céu aberto sobre nós, que nem sequer fazíamos esforço por nos abrigar, de impossível que isso se tornava.Eram nesta altura as cinco da tarde e, das cinco às seis e meia, outra coisa não fizemos senão ensopar-nos na chuva, que nos encharcava a roupa, o corpo e a alma inteira.A temperatura do ar caíra, de repente, dos treze para os seis graus centígrados, e a da água acompanhava-lhe o passo, gelando-nos a cara, as mãos e o corpo, que mais não era do que um cabide para a roupa empapada que trazíamos vestida. A tudo se juntava o aperto a que estávamos obrigados, pela muralha de soldados de intervenção – que, sempre que a multidão lhes parecia ir romper a linha de segurança, logo brandia os inteligentes bastões, negros de azeviche e brilhantes da água que também neles escorria – e pelas novas fileiras de adeptos que, atrás de nós, iam chegando e nos iam empurrando contra os da frente e contra a polícia.Confesso que muitas vezes não conseguia distinguir se era eu que estava molhado se eram aqueles que a mim se encostavam. Sei que estive uma hora e meia à chuva, a uma chuva diluviana, até que aquela mole imensa, de três mil e quinhentos adeptos do Porto, fosse autorizada a pôr-se em movimento, para percorrer, a pé, o quilómetro e meio ou dois quilómetros que mediavam entre as Amoreiras e o Estádio da Luz.Cheguei a duvidar que o Estádio da Luz existisse, apesar de já lá ter ido algumas vezes. Mas, desta vez, nunca mais lá chegávamos. Por ruas e ruas que não tinham fim, conhecidas muitas, outras desconhecidas, por passeios e calçadas, aos tropeções e caneladas, ora devagar, que a polícia não era para brincadeiras, ora numa corrida desenfreada, onde tive que contar com a ajuda do meu filho e de dois amigos mais afoitos, aqui passando por cima de um banco, ali esbarrando com um semáforo escondido na bruma da chuva intensa, lá percorri eu aquela distância sem fim, até vislumbrar a silhueta do estádio, quando já nem esperanças tinha de que tal acontecesse. Para trás o som dos carros e das buzinas contrariadas dos condutores que a polícia obrigara a parar, para passar aquela onda molhada e sem fim da horda que tentou ser um cortejo, mas que não conseguiu passar de uma amalgama humana, retorcida e contorcida pela intempérie e pela organização policial que muito deixou a desejar.“E que teve a organização policial a ver com essa molha?” – perguntarão os mais expeditos.“Quase tudo” – respondo eu.É que, quando eu pensava que o fadário tinha passado, já que, embora chovendo a cântaros, já nos encontrávamos a quinhentos metros da porta do estádio, ainda tivemos que ali ficar, de pé, uma outra hora – até às oito da noite – afogados em água, até que a polícia, doseando a passagem a conta-gotas, deixasse que, vinte a vinte, pudéssemos ir saindo da mole humana e dirigir-nos para os torniquetes, onde filas intermináveis de stewards repetidamente nos revistavam, como se fossemos prisioneiros, à entrada de San Quentin. Isto, para já não falar da inexplicável demora em partir das Telheiras, nem da escolha do lugar de concentração dos adeptos, quando se sabia perfeitamente que as condições atmosféricas poderiam descambar à noite.Num país de bem, o ministério da tutela respectiva, apoiado numa estrutura de poder competente que, de cima para baixo, também competentemente coordenasse a polícia, teria no mínimo consultado o boletim meteorológico do dia e garantido que todos nós, adeptos visitantes, que nos sujeitámos a comprar bilhetes a um preço exorbitante, fossemos tratados com dignidade – ajuntados num local mais adequado, próximo do estádio e seguro, e rapidamente escoados para dentro do estádio – e não tratados como gado, entre duas paredes, à espera da vacina ou do brinco na orelha.Não tinha sede, que, se tivesse, podia beber a água da chuva que me descia pela cara e passava em jorro pelos cantos da boca.Com os pés dormentes, da água, do frio e do cansaço, lá arribei à cadeira que de rompante me coube, onde fiquei de pé todo o jogo, rezando para que se não partisse, de tanto salto e tanto pulo que aqueles com quem também, de pé, tive que a partilhar, davam em cima dela – chegaram a estar três pés em cima daquela cadeira, e só um era meu.De vez em quando, acirrado pelos apupos de um ou outro portista menos temeroso, um soldado da polícia de intervenção levantava o bastão e corria à bastonada tudo o que via pela frente, no meio da claque portista, mesmo ao meu lado e ao lado do meu filho.De uma das vezes, quando um senhor, por acaso muito simpático, que estava ao meu lado, tentou sugerir qualquer coisa a um destes inteligentes guardiães dos recintos desportivos, este logo desfechou sobre ele uma bastonada com um tal ímpeto que o cavalheiro foi de rojo na bancada ao longo de mais de três metros. Pela descrição até agora feita já se deverá ter percebido que, àquela altura, eu estava ali com uma vontade imensa de ver futebol.Para cúmulo, perdemos. Com um golo fora de jogo, mas perdemos.Claro que, se alguma daquelas bolas, que até zumbiram nos ouvidos do Quim, tivesse entrado, a história era outra. Mas nenhuma entrou, nem aquela que, rematada pelo Meireles e desviada pelo Luisão, “deixou o Quim em Aveiro sem sapatos”. Nem mesmo essa entrou.E o Porto perdeu.Bastaria que o Helton tivesse tido sorte e defendido aquele remate do Saviola, e todo o discurso da imprensa agora seria outro, ainda que o Porto tivesse jogado pior do que o que jogou.Mas o Porto perdeu, ponto final.Não escrevi esta crónica para lamentar o resultado do Porto, até porque sei que o importante é a regularidade de uma equipa e, em termos de regularidade, o Porto é imbatível, e está inexoravelmente a caminho do penta.Escrevi esta crónica para dizer que não morri afogado, apesar da chuva que caiu, do governo que nos desgoverna e da errada logística policial.Tamanha brutalidade de meios, aliada à intempérie, fizeram-me descer aos infernos, no Domingo passado, e foram o melhor convite que me poderiam fazer para, da próxima vez, ver o jogo em minha casa, do meu sofá, pela janela colorida da minha televisão.